Ser pai ou mãe é uma tarefa difícil. Se você soubesse o quão verdadeira é essa afirmativa talvez pensasse duas vezes antes de planejar a vinda de um filho (nos casos onde é possível esse tipo de organização da própria vida, claro). Talvez o instinto de preservação da espécie bloqueie a razão e haja algum hormônio no corpo humano que distorça essa capacidade de avaliação nos indivíduos que passam a fazer o possível e o quase impossível para gerar uma vida.

Por que é tão difícil? Porque os pais dificultam tudo para si próprios achando que tem que ser os melhores pais do mundo. Nós temos o hábito de pensar que nossos filhos precisam de muita coisa de nós para serem felizes ou para estarem seguros. Não precisam. Nem mesmo o carinho e a atenção escapam de nossas próprias cobranças num mundo de excessos e pressões descabidas pela perfeição da família de comercial de margarina.

Eu vou lhes confessar que muitas vezes fui dormir com um nó na garganta porque tive um dia ruim com minhas filhas. Quando estou longe de casa, trabalhando, muitas vezes fico imaginando quanto tempo perdi com outras coisas ao invés de dar atenção a elas. Que sofrimento terrível e maluco imponho a mim mesmo com esses devaneios.

Mas nada como a experiência de um dia após o outro e do exercício da reflexão permanente sobre nossas atitudes que nos levam a evoluir, antes de tudo, como seres humanos. Recentemente fiquei doente e precisei repousar por dois dias. A médica me mandou relaxar, assistir a um filme, não me exercitar, etc. Num desses dias fiquei dedicado às meninas. Coisas que sempre faço, como ajudar numa atividade escolar, ver e ouvir um DVD quinze vezes, contar uma história cinco vezes, mas naquele dia eu fiz tudo isso sem pressa, com a maior paciência do mundo, observando as reações, pegando no colo, fazendo cócegas, tirando fotos e fazendo filmagens.

O que foi diferente de outros dias que fiz exatamente a mesma coisa e, mesmo assim, terminei o dia me cobrando ser um pai mais presente, paciente, amoroso? Quase nada! Naquele dia, entretanto, eu estava também cuidando de mim, porque não marquei nenhum compromisso, não me obriguei a fazer nada a não ser relaxar e aproveitar.

Naquele dia eu compreendi que sempre fui um bom pai para as meninas e que elas aproveitaram o dia ao meu lado como sempre fazem e devem ter ido dormir pensando o quanto eu sou legal, amoroso e presente. Todos os outros compromissos que ficam fustigando a nossa mente é que nos pressionam e preocupam demais. Enchemos a cabeça com tantas coisas que nem somos capazes de observar a nossa própria atitude diante da vida e acabamos sendo o melhor que poderíamos ser sem aproveitarmos o que estamos fazendo.

Sair do piloto automático às vezes é importante. O corpo adoece porque algo vai mal e nem sempre é no físico. Não é preciso chegar ao extremo para curtir, com calma e paciência, aquilo que você faz com seus filhos. Também não é se doar totalmente a eles, porque aqui em casa pelo menos se fosse pelas meninas eu não faria mais nada da vida a não ser brincar com elas. É dosar, com equilíbrio, o que podemos ou não fazer por nossos filhos, com a certeza de que estamos fazendo o melhor. E o termômetro ideal são as próprias crianças: felizes, saudáveis e cheias de gratidão por nosso esforço. Até mesmo o aprendizado com as frustrações será importante, quando descobrirem que não são o centro do universo. Não podem ser! Um dia vão descobrir isso, seja em casa, na escola ou no trabalho. Melhor que seja com amor, ensinado por quem quer ser o melhor para elas.

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