Nos primeiros meses após o nascimento da Luiza, nossa filha mais velha, assim como todos os pais estreantes, minha esposa e eu passamos por algumas dificuldades naturais como o medo, a incerteza, os equívocos, os excessos, etc. Nada mais normal do que errar muito quando o que se sabe está baseado apenas na experiência de outras pessoas. É o famoso “na prática a teoria é outra”.

Eliz tentou o parto natural, não foi possível. A amamentação também não foi uma tarefa simples para ela e os primeiros dias foram um fiasco! Peito rachado, Luiza chorando, eu sem saber o que fazer, minha esposa irritada e todos exaustos. Qualquer problema se potencializava e as soluções eram as mais mirabolantes: das simpatias (que refutávamos vigorosamente) às inúmeras idas e vindas ao hospital, ao banco de leite, às lojas e às farmácias.

Depois, começamos a nos preocupar com a creche. A licença maternidade de minha esposa se aproximava do fim, os preços de escolas particulares eram exorbitantes e, na ânsia maluca de colocarmos nossa filha numa redoma de vidro da melhor qualidade possível, nem cogitamos creches públicas. A solução encontrada foi a Eliz sair do emprego.

Foi exatamente no dia em que tomamos essa decisão que eu percebi o tamanho do peso, da culpa e da carga emocional que minha esposa estava carregando. Só então percebi que, tentando fazer a coisa certa, eu a tinha pressionado e a levado a tentar fazer as coisas conforme os pais e mães especialistas (bem intencionados, diga-se de passagem) – aqueles que sabem tudo sobre como criar o filho dos outros. Faltou a percepção de que eles aprenderam na prática e, muitas vezes, com o próprio erro.

A Eliz chorou muito quando eu disse que faríamos tudo para nos adaptarmos a uma nova rotina onde ela não precisasse encarar uma jornada dupla. E foi um choro de alívio, de quem estava sufocada pelos múltiplos compromissos que uma mulher nessa fase da vida precisa enfrentar, além de ouvir todas as espécies de dicas, conselhos, repreensões, acusações, etc. Eu, sem querer, não estava percebendo o quanto ela precisava ser apoiada e suportada em suas próprias decisões.
“Você não tentou o parto normal até o fim”, “você não está na posição correta para amamentar”, “não coloque o bebê na sua cama para dormir”, “não dê mamadeira”, “não dê chupeta”, “não coloque na creche”, “não pare de trabalhar, seja independente”, não isso, não aquilo, etc. Um monte de bobagens que as pessoas não se policiam ao dizer e que fazem isso na intenção de ajudar, sem perceber o tamanho do fardo que uma mãe pode carregar pela vida inteira por não conseguir ser a mãe perfeita dos comercias de fraldas e papinhas infantis.

Eu tentei me condicionar quando nossa segunda filha nasceu a fim de apoiá-la em todas as decisões que seu instinto maternal a mandassem tomar. Quando ela decidiu que daria a chupeta à Lavínia, eu nem pestanejei. Quando ela não suportou mais a dor e optou pela cesariana, eu disse que estaria na sala de cirurgia com a mesma emoção. Quando ela quis que Lavínia dormisse em nosso quarto ao lado da cama, eu adaptei o carrinho para ficar ao lado dela (já que o berço não caberia no quarto). Ela também decidiu que, por mais que amasse dar o peito, com pouco leite, ela preferiu oferecer a mamadeira a partir do terceiro mês a ter que enfrentar todo o suplício e até a mutilação que a primeira experiência a impôs.

Errada ou certa, eu não permiti que ninguém a julgasse ou pressionasse. E absolutamente nenhuma outra pessoa sabe o suficiente sobre uma criança do que sua própria mãe, portanto, o papel de quem está ao lado da mãe nos primeiros meses de vida de uma criança é apoiar e cuidar para que não extrapole os limites da ajuda com excessos de dicas e sugestões. Não que elas não sejam bem vindas e não que as experiências vividas por outras pessoas não sejam úteis para nos orientar em algum momento. É apenas uma questão de bom senso mesmo, pois acertando (na maioria das vezes) ou errando (pouco), nós que somos os pais eventualmente já nos sentimos os piores pais do mundo e, creio eu, ninguém quer ajudar a aumentar esse sentimento de culpa.

Para quem deseja ajudar: aconselhem quando forem consultados, divulguem suas experiências positivas e negativas e deixem que as pessoas vivam as próprias experiências e, principalmente, para quem é pai ou mãe, continue seguindo seus instintos (especialmente os maternos). Como dizem os franceses: cherchez la femme! Chamem a mulher!

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