Se você é uma daquelas mães sortudas cujo bebê começou a dormir de uma estirada só já aos 3 meses e nunca reclama quando é levado ao berço, nem perca seu tempo com esta reportagem. Já se colocar seu filho para dormir é quase sempre um tormento, saiba que você não está sozinha.

Embora os médicos digam que aos 6 meses toda criança está fisiologicamente apta a dormir a noite inteira, a realidade é um pouco diferente. Os resultados preliminares de uma pesquisa com quase 1000 mães no Canadá indicam que 73% das crianças de 6 meses a 2 anos acordam os pais no meio da noite pelo menos uma vez por semana. E quase metade, ou 43%, faz isso na maior parte das noites.

Coordenado pela professora de psicologia Lynn Loutzenhiser, da Universidade de Regina, o levantamento ainda mostra que 20% das mães levantam no mínimo três vezes durante a madrugada para acudir o bebê. Uma rotina que faz muita gente desistir do segundo filho. Como explica o pediatra e especialista em sono Gustavo Moreira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), despertar várias vezes é absolutamente normal do ponto de vista fisiológico. Quando isso acontece, a maioria das pessoas (inclusive muitos bebês) muda de posição, dá uma olhada ao redor e volta a dormir. “Mas algumas crianças não conseguem fazer isso sozinhas”, explica. Elas precisam de colo, de companhia ou de algo para sugar para voltar aos braços de Morfeu.

Claro que qualquer criança vai acordar de madrugada se estiver resfriada, com dor no ouvido ou desconforto pelo dente que está chegando. É preciso considerar, ainda, doenças com diagnóstico mais difícil, como refluxo e alergias.

As causas para os despertares podem ser variadas, mas, em boa parte das vezes, tudo se resume ao que especialistas chamam de imaturidade neurológica ou psíquica. “O cachorro dá os primeiros passos assim que nasce, mas com os bebês isso só ocorre depois de um ano; da mesma forma, o sono não acontece naturalmente, só pelo cansaço”, comenta a psiquiatra e psicanalista Nayra Ganhito, autora do livro “Distúrbios do Sono” (Casa do Psicólogo). O pediatra explica que o bebê quase sempre compensa a falta de sono noturno nos cochilos que tira durante o dia. Além disso, há crianças que dormem menos, assim como acontece entre adultos.

Ainda que o médico garanta que o bebê está sadio e crescendo adequadamente, é compreensível que os pais busquem soluções para dormir melhor. Os efeitos da privação (ainda que parcial) do sono são bem conhecidos pela ciência: irritabilidade, mau humor, cansaço, dores e falta de memória, entre outros. Depois de acordar a noite inteira, fica difícil trabalhar e mesmo cuidar do filho.

“Minha personalidade mudou muito desde que comecei a dormir picado. Ando muito menos tolerante ultimamente e não pode acender fósforo perto de mim”, relata Ligia Sena, em um dos divertidos posts do seu blog Cientista Que Virou Mãe. Doutora em neurofarmacologia, ela concilia um novo doutorado com os cuidados da filha, Clara, de 1 ano e meio, que ainda acorda algumas vezes durante a noite.

Ela admite que a privação de sono é penosa, mas não considera que a filha tem um problema: “As pessoas acham que o bebê tem que ser um reloginho, e isso é reforçado por muitos médicos”, critica. “Mas uma criança é diferente da outra, não só pelo ambiente, mas do ponto de vista biológico também”, defende a cientista.

O papel da mãe

Como descreve Ganhito em um de seus artigos, “a mãe é a guardiã do sono do bebê”. Como a criança ainda não é capaz de internalizar a figura materna, fechar os olhos é renunciar a ela. E a mulher, muitas vezes fascinada pela maternidade (é difícil ficar uma hora sequer longe da criança), ansiosa (será que ele está respirando bem, será que está nutrido?), ou ausente (investindo menos do que o bebê precisa), pode acabar tornando essa “separação” ainda mais penosa.

Como sugere a especialista, uma autoanálise pode ser o primeiro passo para fazer o filho dormir melhor. “É preciso pensar que o problema também está na relação e não só no funcionamento neurobiológico da criança”, acredita.

O pediatra e homeopata José Armando Macedo, do grupo de estudos Espaço-Potencial Winnicott, do Instituto Sedes Sapientiae, também acredita que o estado da mãe possa interferir no sono dos pequenos. “Um bebê que sente fisicamente o corpo tenso da mãe que está insegura e ansiosa só consegue sustentação emocional quando está colado ao corpo dela; ele exige uma sustentação que é física: o colo”, avalia.

Excesso de estímulo

Macedo pondera que também há outras questões envolvidas no sono da criança, como a hiperestimulação. “Alguns bebês são mais excitáveis e alguns estímulos podem ser excessivos para eles, como o calor ou o excesso de informação”, exemplifica. O médico observa que muitos bebês vivem uma rotina de executivo – passam muitas horas no berçário e são cuidadas por três ou quatro pessoas diferentes. E, se o dia é conturbado, à noite os sonhos reproduzem a agitação.

Pelo mesmo princípio, limitar as sonecas durante o dia pode ser desastroso para o sono noturno do bebê, embora muita gente pense o contrário. O alerta é da neurocientista Andréia Mortensen, professora assistente da Universidade Drexel, na Filadélfia (EUA) e colunista do Guia do Bebê. É uma bola de neve: quanto menos a criança dorme, mais dificuldades de sono ela terá.

Segundo ela, os cochilos devem durar pelo menos uma hora. “A não ser em situações raras, em que a criança tira sonecas longas demais, pode-se tentar encurtá-las. Mas o mais comum é elas dormirem menos do que precisam durante o dia”, afirma.

Associações

Na ânsia de fazer o bebê parar de chorar e voltar a dormir, é natural que a mãe ofereça o peito, a chupeta, ou perambule com o pequeno pela casa. É quando acontece o que os especialistas chamam de associação do sono: algumas crianças não conseguem mais dormir sem a “muleta”.

Muitos especialistas defendem que, para evitar essas associações, é importante que o bebê vá sonolento, mas ainda acordado, para o berço. Até para evitar o choque de dormir no aconchego do colo materno e despertar sozinho, em outro ambiente. “Caso ele adormeça em outro lugar, dê um beijinho de boa noite, para que ele acorde e veja onde está sendo colocado para dormir”, sugere a psicóloga Renata Soifer Kraiser, autora do livro “O Sono do Meu Bebê” (CMS Editora).

Para o pediatra Sylvio Renan, autor de “Seu Bebê – Em perguntas e respostas” (MG Editores) e do Blog do Pediatra, uma vez na cama, o bebê não deve mais sair de lá. “Se a criança solicitar os pais com choro ou gritos, eles devem se dirigir para o quarto, acalmar a criança, cantar e fazer-lhe carícias, mas sem retirá-la do berço.” O objetivo, diz ele, é que o local onde ele dorme seja sua única associação ao sono.

FONTE: Jornal de Uberaba

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