“Imaginava que seria superdesencanada com essa coisa de excesso de apego, de mimos. Muitas vezes critiquei minha irmã. Paguei a língua. Enganei-me totalmente.”

Durante a licença maternidade eu já imaginava que a volta ao trabalho seria bem desafiadora e que a vida profissional jamais seria a mesma. Não estou falando de competência, de aptidão e muito menos de dedicação. Estou falando de ambição. E vou me render ao clichê e dizer que a maternidade muda a nossa forma de ver o mundo. Eu que nunca havia dado muita atenção ao tão comentado “menos presente e mais presença” das redes sociais, passei a pensar nisso com obstinação.

E o que eu faria para complementar a renda, manter meu padrão de vida e arcar com as despesas de uma criança e, com tudo isso, dar a atenção que idealizei para o meu filho, por exemplo, como amamentação prolongada e em livre demanda?

Sempre que me deparei com propostas para trabalhos extras que me obrigariam a viajar, mesmo que por uma noite apenas, rejeitei. Imaginava que seria superdesencanada com essa coisa de excesso de apego, de mimos. Muitas vezes critiquei minha irmã. Paguei a língua. Enganei-me totalmente. Foi então que comecei a pesquisar sobre projetos de “mães empreendedoras” e passei a investir meu tempo, seriamente, em abrir um negócio de complemento de renda em que meu filho pudesse estar presente. E consegui. Ele não só está presente ao meu lado, enrolando-se nos retalhos e amassando os moldes, como sendo o “modelo” dos meus produtos. É nele que testo ajustes, reações alérgicas e conforto das fraldas ecológicas da confecção que abri junto com outra mãe. Ela, assim como eu, escolheu a linha de criação com apego. Nos entendemos e nos apoiamos o tempo todo.

Esta escolha me poupa da culpa que senti ao perceber que estava terceirizando a vida do meu filho aos cuidados de pessoas estranhas. Quando ele passava oito horas na creche, eu ficava sabendo sobre o dia dele por meio de um pedaço de papel e alguns “x” em dormiu, lanchou, jantou, evacuou, enfim. E as gargalhadas? E as coisas novas que ele aprendeu? E as caras que fez ao comer algo novo? Tudo tão frio e diferente do que pensei pra nós dois.

Estava decidido: em um turno do dia, eu cumpriria minhas tarefas de funcionária pública e no outro passaria a trabalhar em casa, com ele puxando minha roupa pra mamar, pedindo atenção, jogando brinquedo por debaixo das minhas pernas, desarrumando a casa e mamando enquanto respondo a um e-mail. É assim que eu amo! É assim que eu quero. Muito mais do que a grana para vestir o meu pimpolho com marcas legais, eu quero tempo com ele pra depois não morrer de remorso quando olhar fotos e pensar: passou tão rápido!

Nossos dias são mais simples, com menos roupas novas, menos idas aos restaurantes, salão de beleza e shopping. Gastamos nosso dinheiro que, agora é mais contadinho, com a experiência de estarmos juntos, descobrindo brinquedos educativos, tomando água de coco na praia, fazendo bichos de massinha e nos sujando de tinta guache.

Com essas nossas escolhas, não teremos viagem internacional tão cedo. O nosso avião viaja mesmo pela sala, carrega nossas gargalhadas e não nos custa nada, além de uma folha de papel.

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