Meu filho pode brincar de boneca?

    Nossa colunista Liandra desmistifica as experiências entre pais e filhos em relação a escolha dos brinquedos e brincadeiras dos pequenos.

    Nós, adultos, somos da geração que foi criada acreditando em pequenas regras sociais que separam em gênero as brincadeiras de criança e, talvez por isso, seja tão complicado compreender e desconstruir essa divisão feita culturalmente. Os tempos mudaram e brincar de boneca não se limita mais às pequenas e a bola não fica apenas com os meninos.

    Muitas mães e pais temem que as brincadeiras possam exercer influências sobre a sexualidade das crianças, o que é um ledo engano. Os pequenos brincam por curiosidade, faz parte da aprendizagem e da liberdade de expressão querer experimentar um pouco de cada passatempo e, limitar suas opções apenas aponta um problema dos adultos perante os estigmas do cotidiano.

    Alguns pais ainda temem o julgamento alheio. “Nossa, você vai deixar seu filho brincar de boneca? Nossa, sua filha faz aula de judô?” Sim, os pais são julgados o tempo todo e ceder a essa pressão social pode parecer o caminho mais fácil. A pergunta é: mais fácil para quem? Porque as crianças continuarão sem entender o que tem de errado em simplesmente brincar, já que é assim que elas enxergam a vida, pelo menos por enquanto. Bom mesmo seria se essa liberdade se perpetuasse. Talvez assim tivéssemos adultos menos inseguros e, logo, pais menos repressores.

    “Os brinquedos e as brincadeiras estão ligados a um contexto cultural. Nos jogos lúdicos, a criança promove uma imitação do adulto, daquilo que ela observa. Assim, é uma questão de desempenho de papéis na sociedade”, explica a pedagoga Maria Angela Barbato, em entrevista à Felipe Borges, da Oficina de Imagens.

    Estabelecer uma divisão de gêneros na hora da diversão é perpetuar a diferença entre meninas e meninos e até mesmo incentivar o preconceito. Por isso, o importante é que os pimpolhos estejam se divertindo e que as atividades sejam ofertadas igualmente para ambos os sexos.
    Para a pesquisadora Daniela Finco, também em entrevista à Felipe Borges, reconhecer essa complexidade e essa criatividade é, na verdade, reconhecer o direito das crianças à própria infância e à brincadeira livre e espontânea.

    Por isso, é recomendável que haja sempre uma supervisão das recreações por motivos de segurança dos pequenos, mas que a interferência dos adultos responsáveis venha somente para ensiná-los a respeitar uns aos outros e a escolherem o que mais lhes agrada.