Quem já viu alguma partida de futebol infantil ou crianças praticando algum esporte, já ouviu, com certeza, os gritos desesperados de torcedores muito peculiares: os pais! Afinal, os filhos os levam ao extremo.

Alguns extrapolam o bom senso: xingam, exigem, pressionam e até acusam os treinadores de seus filhos de incompetência. Nem sempre se comportam como adultos, que estão apenas vendo seus filhos se divertirem com o esporte. Isso sempre deixou claro pra mim o grande risco que é a projeção de nossos sonhos no futuro dos filhos.

Obviamente isso não se resume ao esporte.

Desde cedo fazemos previsões para as carreiras das crianças. Serão futuros médicos, engenheiros, cientistas ou astrofísicos; tocarão seis instrumentos distintos, descobrirão a cura de uma doença grave, serão artistas famosos, verdadeiras estrelas destacadas entre as bilhões de pessoas que já passaram por nosso planetinha socado no meio de uma galáxia perdida no universo.

Queremos a felicidade deles? Claro! Mas, percebam: as crianças muitas vezes fazem as coisas que queremos apenas para NOS agradar, e não porque estão se divertindo com aquilo. Assim, vão caminhando ao longo da vida, pressionados pelos sonhos frustrados de seus pais.

Luiza, minha filha mais velha, já experimentou Balé, Taekwondo e, atualmente, pratica natação. Como sou um adepto do Triathlon amador, nunca a incentivei a praticar o mesmo esporte que eu. Foi acontecendo naturalmente e, num determinado dia, ela me perguntou se poderia ir comigo. É claro que eu vibrei! Fiz a inscrição dela, dei as primeiras instruções e disse que queria que ela se divertisse muito (embora, por dentro, eu quisesse vê-la brilhando).

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Foi um dia especial pra mim. Ela demonstrou garra, fez toda a prova com um machucado feio no dedo, mas com um sorriso lindo no rosto. Meus amigos aplaudiram, incentivaram e se emocionaram porque ela era a atleta mais nova competindo naquele dia. Subimos no pódio juntos para ela receber a medalha de ouro (como única atleta da categoria, ok). Foi especial.

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Ainda que eu queira sentir aquela emoção novamente, está claro em minha mente que eu não posso forçá-la a nada. Por isso, não faço projeções de que ela se torne uma atleta olímpica da modalidade, pois, se um dia aquilo não for mais divertido e ela pensar que é obrigada a fazer, então é hora de parar de projetar meu sonho sobre ela.

Eu só quero que o olhinho dela brilhe de novo ao ver que é capaz de ser quem quiser, independente de me agradar ou não.

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Recentemente fomos a uma mostra de arte na escola dela. Ela fez questão que eu fosse, mesmo sendo num sábado às 7h da manhã. Ela adora desenhar, tem ótimos traços e sempre capricha quando a atividade é dessa disciplina.

Naquele dia ela me perguntou o que tinha que fazer para ser uma professora de artes. Confesso que, na minha mente, logo me veio um pensamento baseado na realidade de nosso país: professores ganham mal, são pouco reconhecidos ou valorizados. Ou seja: lá estava eu projetando um futuro para a minha filha, que não me dizia respeito. Consegui conter meu pensamento preconceituoso e disse a ela que poderíamos perguntar à professora dela.

Mas uma coisa eu soube a partir dali. Se ela quiser, pode ser uma excelente professora de artes, pois eu e a mãe dela apoiaremos sempre suas decisões.

Quantos sonhos infantis morreram quando os pais mostraram as dificuldades de realizá-los aos seus filhos? Quanta bobagem já dissemos a eles, para desestimulá-los de suas fantasias, simplesmente porque esse não era o futuro que – egoisticamente – desejamos para nossos filhos prodigiosos desde antes de concebê-los?

As crianças experimentam tudo por sua curiosidade natural. No momento certo farão suas escolhas.

E nós? Quem seremos nessa história? Aqueles que as transformaram em pessoas frustradas, acolhidas em profissões que odeiam, tocando instrumentos que detestam ou praticando esportes aflitivos a eles? Ou seremos aqueles a quem eles dedicarão suas conquistas pessoais, porque simplesmente apoiamos suas decisões ao longo do caminho e deixamos que buscassem a felicidade em suas próprias histórias?

Rodrigo Rossoni é pai de Luiza e Lavínia, marido da Eliz e trabalha em alto mar.

Encontre Rodrigo no Twitter: @RodrigoRossoni

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