Há alguns dias, eu estava assistindo a uma apresentação de comédia Stand Up da americana Ali Wong, em que ela fazia piada com algo que achei fantástico: é fácil ser um bom pai, tanto quanto é fácil ser uma péssima mãe. O vídeo se chama “Baby Cobra”, se quiserem se divertir um pouco eu recomendo. Está disponível no Netflix.

Enquanto a atriz brincava com o fato de seu marido ser “glorificado” apenas por acompanhá-la durante o pré-natal, ela dizia ser a protagonista naqueles exames (ninguém estaria vendo o bebê se ela não estivesse presente). E eu, assistindo ao programa, ficava pensando o quanto o novo modelo de “paternidade participativa” é um movimento mundial que posso creditar ao inconsciente coletivo.

Todos os meus amigos cujas esposas engravidaram nos últimos dez anos estavam ao lado delas durante a gestação e muitos se tornaram pais corujas e bons parceiros que apoiam e ajudam nos cuidados com a família após o nascimento dos bebês. Em alguns anos, a nossa sociedade não vai mais estranhar esse fato, ou achar que o “pai presente” é um fofo por fazer algo que, há não mais do que duas gerações, era impensável. Para nossos avós e para a maioria dos pais da minha geração, a gestação e os cuidados com os filhos era dever da mãe no campo afetivo e do pai no campo financeiro.

Mudaram as relações de trabalho e os direitos das mulheres e, com isso, um novo “modelo” de mãe surgiu, muito mais resoluta e exigente. As mulheres possuem hoje um poder muito maior sobre a própria decisão de ter filhos. Ainda há a pressão pela gravidez, seja dos amigos e da família, seja pela idade da mulher, mas conheço muitas delas que estão extremamente bem resolvidas com sua decisão de não ter filhos ou permanecerem solteiras e desimpedidas e, também nesse caso, gerarem ou não um bebê.

Com esse poder nas mãos, aquelas que decidiram ser mães de forma planejada estão ponderando muitas coisas e, dentre elas, qual será o grau de participação do pai em todo esse contexto. Minha esposa me conhecia bem o suficiente para saber que eu seria um pai presente. E alguns amigos se lembram como eu gostei de viver a gravidez: fiz jornalzinho para informar sobre o andamento da gravidez, me diverti, acompanhei cada ultrassom, cada consulta, cada movimento do bebê dentro da barriga o quanto eu pude. Depois que Luiza nasceu, eu sempre colaborei atentamente também para que minha esposa não sentisse que ser mãe foi uma escolha só dela. Exatamente por isso ela me permitiu ser pai novamente, da Lavínia, depois de ter sido “aprovado no primeiro teste”.

Em nossa família, porém, há essa coisa de ausência obrigatória em virtude do meu trabalho. Quando estou fora, Eliz tem que ser a “mãe à moda antiga”, ou seja, levar para o médico, aprontar para a escola, preparar a comida, ajudar nas tarefas, tratar as feridas, mediar os conflitos, dar o carinho, guardar os segredos, brincar, contar história, botar pra dormir, etc. Enquanto isso, à distância, só posso suprir a casa financeiramente e, no máximo, uma ou outra palavra de ajuda pelo telefone.

Por ser esse tipo de mãe solitária e que segura a barra na raça enquanto eu estou fora, as pessoas costumam dizer que Eliz não parou de trabalhar, mas trocou seu emprego confortável num hospital pela tarefa de ser mãe “não remunerada” 24h por dia. Com isso eu volto ao caso da humorista Ali Wong para concordar com ela em relação ao papel principal da mãe na vida de uma pessoa. Porque não importa o quanto as relações mudem, ou o quão presentes e participativos os pais sejam, o papel de protagonista é o da mãe na maioria das vezes.

Portanto, pode ficar tranquila Wong. Neste filme da vida real ainda que nós, os pais, sejamos parte fundamental na geração e criação dos filhos e que nosso talento e participação sejam essenciais para o desenvolvimento deles ao longo da vida, não conseguiremos, por mais fofos que sejamos, brilhar mais do que a “mãe-estrela” principal e nem mesmo iremos roubar a cena em nenhum momento, porque até os bebezinhos quando nascem, haja vista toda a atenção e mimo que recebem, já fazem isso bem melhor do que nós.

Comments
  • Angelta Lopes Cardoso

    Houve uma inversão de papeis, onde os homens ficam em casa e as mulheres saem para trabalhar.
    Hoje é mais natural ver os pais com os filhos em momentos de lazer, compartilhando as tarefas domesticas e outras coisas mais.
    Isto é formidável, o novo sendo adaptado de acordo com a aceitação do casal.
    Parabens Rodrigo, pela temática.

Deixe um comentário