Uma dica de um pai de menina: faça uma viagem com sua filha. Só vocês dois, deixe a mamãe descansando um pouco em casa, ou numa praia, sei lá, apenas faça. Pode ser uma viagem curtinha e para algum lugar perto, mas só posso dizer que essa experiência irá levar a sua relação com ela a outro patamar: o da cumplicidade.

Já tive duas oportunidades de viajar sem a minha esposa levando apenas a minha filha mais velha, a Luiza. Numa ocasião, quando ela tinha cinco anos, fomos juntos ao Tocantins e passamos alguns dias numa fazenda onde a levei para andar de barco e a vi se tremer de emoção ao pescar o primeiro peixe de sua vida. Minha esposa, Eliz, estava no resguardo de nossa caçula, a Lavínia, e o evento era um encontro de minha família.

Minha mãe estava conosco naquela ocasião (e ela e Luiza eram apaixonadas uma pela outra), mas mesmo assim, sem a presença da Eliz, eu tive muito mais liberdade – e responsabilidades – para que o nosso envolvimento fosse completo. Mesmo com toda a ajuda da vovó, sem a qual teria sido muito mais difícil, eu não poderia me distrair dos cuidados com ela como faria com mais tranquilidade se minha esposa estivesse por perto.

Recentemente vivemos outra aventura juntos: fomos só nós dois aos jogos olímpicos no Rio de Janeiro. Fomos assistir ao triathlon e ao taekwondo. O primeiro porque sou um praticante amador da modalidade e o segundo porque ela mesma é uma taekwondista há mais de um ano.

Comprei os ingressos e as passagens aéreas para um sábado após a minha chegada da plataforma numa sexta-feira. A correria foi grande e quase deu errado por causa de um atraso em meu voo de desembarque. Também comprei para ela uma mochila que enviei pelos correios e que minha esposa arrumou com as coisinhas que ela precisaria para passar um dia inteiro pelas ruas andando de um lado para outro comigo, como se fôssemos dois mochileiros a nos aventurarmos.

Deu tudo certo, vibramos, tiramos fotos, comemos bobagens na rua, andamos de VLT, BRT, metrô, avião e ônibus. Tudo no mesmo dia perfeito. Na volta, optei pelo retorno de ônibus para evitarmos os hotéis superlotados e mega caros e porque seria o horário mais tarde possível para que pudéssemos aproveitar cada momento mágico daquele dia especial. Na rodoviária, ainda chegamos a tempo de assistir, pela TV, aos três últimos pênaltis que deram o primeiro ouro da história do futebol masculino. Tudo intenso, tudo histórico, tudo emocionante e eu estava vivendo aquilo com minha filha.

Ela se cansou, comemos um espaguete, ela dormiu no meu colo enquanto aguardávamos nosso horário. Comprei passagens num ônibus confortável e a acomodei com amor na poltrona, cobrindo-a com uma manta e dando um beijo prolongado e carinhoso de boa noite na testa e no rostinho lindo dela. Ela estava sorrindo pra mim e eu segurei minha emoção ao ver a gratidão na expressão dela.

As dificuldades de um pai andar por aí sozinho com sua filha partem das coisas triviais, como levá-la ao banheiro feminino, por exemplo, ou lembrar quais são os ingredientes prediletos da comida dela e encontrar algum lugar onde ela não irá torcer o nariz para comer. Mas quando conseguimos agradar nossas meninas lindas com tão pouco é como se o universo nos mostrasse que a felicidade reside nas coisas simples da vida.

Chegamos bem cedo no dia seguinte, já era domingo, e ela estava tão cansada que no final do dia dormiu antes das 20h e só acordou às 9:30h da segunda-feira. Eu também estava exausto. Em muitos momentos, tive que carregá-la nos ombros para poupar suas perninhas magrelas das longas caminhadas, mas se eu pudesse escolher um dia para colocar num quadro permanente de minhas boas memórias, certamente aquele teria sido um de meus prediletos.

Se você é pai de uma menina, experimente as delícias de ter uma garotinha como parceira de aventuras. Deixe de lado os tabus, as bobagens das convenções e expectativas sociais e se lance num universo feminino que irá torná-lo um homem melhor ou, no mínimo, mais feliz.

 

Rodrigo Rossoni é pai de Luiza e Lavínia, marido da Eliz e técnico de instrumentação.

Deixe um comentário