A tia não está para brincadeira

    4ª série. Colégio Nacional. Entra uma mulher gorda, com elegante roupa de seda na nossa sala: Meninos, a professora vai ensinar matemática.
    Naturalmente me voltei para a porta, esperando a entrada da professora. Só quatro ou cinco aulas depois, percebi que se tratava dela mesma. O esclarecimento se deu quando ela disse: quar-ta-sé-ri-e-bê, a professora não quer ouvir mais nem um pio.
    Ela sempre falava da professora, mas eu nunca me acostumei. Mesmo a matemática tendo sido um mistério para mim, desde o começo, o que intrigava verdadeiramente naquelas aulas era a maneira como ela referia-se a si mesma na terceira pessoa, como um ser alheio, quase uma entidade.
    Hoje, chamo a mim mesma de mãe, mesmo quando não é com Miguel que trato. Preciso me policiar. No banco, um homem abordou outro, apontando para mim. “Sabe se aquela moça está na fila?”, perguntou.
    – Não. Mamãe tá só esperando…
    – Oi?!
    Não me refiro a mim por “eu”, o normal, mas pelo meu nome, na terceira pessoa, como um ser alheio, uma entidade, como “a professora”. Mamãe é meu nome, variando, no parquinho, para “a tia”, a contragosto de Miguel
    – Tia, você me balança?
    – Pode sentar, João, a tia balança.
    – Mamãe, você não é a tia, por acaso! – zanga Miguel
    Mesmo o “a tia” tem me pregado umas peças fora do parquinho. A cachorra Copa chegou mais perto, me cafungando, meio fora de hora:
    – Xô, copa, que a tia não está para brincadeira.

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