A volta pra casa

    Não tem nada melhor que aquele abraço gostoso pra matar a saudade. Dá até vontade de nunca mais largar!

    Em meus nove anos trabalhando embarcado no regime offshore, nunca conheci alguém que não desejasse, de todo o coração, o dia da volta pra casa. Em plataformas de petróleo há vários regimes de trabalho, onde os mais usuais são: 14x21 (14 dias de trabalho X 21 dias de folga); 14x14 (14 dias de trabalho X 14 dias de folga); 28x28, dentre outros. Seja qual for a escala, o último dia de trabalho é sempre aquele que nos proporciona a deliciosa sensação de dever cumprido e de que a saudade de casa está pronta para dar lugar a mais um período de lazer e descanso ao lado da família.

    Chegado o grande dia, porém, é preciso vencer algumas etapas antes de ganhar o abraço apertado, o beijo caloroso e os olhares de alegria das minhas meninas: Eliz, Luiza e Lavínia, que me esperam sempre cheias de carinho e novidades.

    A primeira etapa é esperar o helicóptero que nos levará até uma base terrestre. Essa espera é angustiante, pois há muitas variáveis envolvidas que podem fazer o vôo atrasar ou até mesmo ser cancelado: mau tempo, indisponibilidade de frota, situação operacional da unidade, etc. Eu já tive que ficar até três dias além de minha escala normal, numa certa ocasião, porque simplesmente não parava de chover e nessa situação o vôo fica muito arriscado. É preciso resiliência e compreensão, pois nossas vidas são preciosas para quem nos espera.

    Vencida a etapa do vôo – que dura ao todo entre check in, briefing de segurança e o vôo propriamente dito, aproximadamente 2,5h, o segundo momento é o do trajeto para casa. No meu caso, saio da cidade de Campos, no Rio de Janeiro, com destino ao Espírito Santo. Um ônibus nos leva da base onde pousamos com o helicóptero até a rodoviária de Campos, no prazo de uma hora. Quando chegamos, temos mais um momento de espera (coisa de uma hora, mais ou menos), já que os horários nem sempre são consecutivos. Finalmente, um ônibus para a rodoviária de Vitória numa viagem de aproximadamente quatro horas.

    Neste momento, a saudade que aperta tanto o peito, começa a dar lugar ao cansaço e ao desgaste da espera, da viagem, da noite mal dormida pela ansiedade. E o sono luta com a expectativa de que o tempo passe depressa, que cada quilômetro passe mais rápido nas estradas já tomadas pela noite. A vontade de abraçar minhas meninas lindas, meus amores, é tão grande que não consigo pregar o olho por mais de uma hora durante toda a viagem.

    E finalmente chego à rodoviária, por volta de 23h30. Minha esposa normalmente está me esperando. Apesar de minha apreensão e preocupação pela segurança dela, é algo de que ela não abre mão.

    Agora, é dirigir mais 40 minutos até finalmente chegar em casa, após uma jornada de 17 longas horas de uma angustiante espera pelos meus abraços tão desejados, pelos olhinhos brilhantes, pelos beijos afetuosos, pelo papo cheio de novidades, pelas mãozinhas de minhas filhas tocando meu rosto, a voz da Luiza dizendo que estava com saudade, o sorriso de reconhecimento da Lavínia… Mas, combalidas pelo sono, elas normalmente não aguentam esperar e se rendem à cama. E eu tenho que esperar até o dia seguinte para finalmente receber todo o amor que me fez encarar essa jornada louca de 15 dias longe delas.

    Tudo bem! Apenas lendo esse relato vocês não teriam condições de imaginar como vale a pena toda essa espera. É uma delícia indescritível voltar para casa e ser recebido como um rei, tão esperado e amado. Rs… E aproveitar cada minuto, sabendo que em breve uma nova jornada vai iniciar, me fazendo esperar ansiosamente pelo maravilhoso dia de voltar para casa.