Ana e Léa

    > Repreendi Miguel por algum motivo na sala. Ele segurou os olhos aberto, tremeu a boca, bufou duas vezes. Eu quero Aninha, disse, finalmente me dando as costas.

    > Permaneci ainda alguns minutos sentada, perdida, olhando para a parede. Foi a própria Ana que teve que me acudir. Vá lá Miguel, dê um beijo em sua mãe, disse, sem saber que me feria ainda mais.

    > Tenho sido menos dramática, juro. De outras vezes chorei para Rafael; tive raiva do meu filho, a coisa mais terrível do mundo. Hoje respiro fundo, não endureci, mas aprendi a não choramingar.

    > Tenho pensado muito em Léa, nossa babá. Noto em mim vários cacoetes dela, quando falo com meu filho. O “péra lá”, por exemplo, é tão Léa que é como se eu a ouvisse pela casa, falando com meus irmãos.

    > Um olho da boneca caiu e eu me lembrei do rio que levou a boneca de Léa. Um gato passou e eu recordei aquela vez que ela adotou oito gatos. Outro dia, acordei com uma olheira terrível e pensei na mancha marrom que Léa carregava sob os olhos. Eram seis filhos e mais nós três. Foram muito potes de base da mamãe que não deram jeito.

    > Quando criança, muitas vezes tive compaixão de Léa, mesmo me comportava um pouco mais, evitava uma birra, ia dormir mais cedo, tirava meu uniforme para não sujar. E quantas vezes blefei com minha mãe, chamei Léa, mamãe em frangalhos, hoje sei.