As lembranças de um pai embarcado

    E, na semana do Dia dos Pais, mais uma história linda do amor do pai pelos filhos. Dá uma olhadinha!

    Em 2007, quando embarcava na plataforma de petróleo P-34 no Espírito Santo, tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas que marcaram minha vida de forma positiva.

    Eu ainda não tinha nenhuma filha na época e uma de minhas muitas curiosidades era saber como era a rotina dos colegas que já eram pais e tinham que se ausentar de suas casas por um tempo para o trabalho offshore.

    Os depoimentos me causavam as mais variadas reações: dúvidas, preocupações, comoção, alegria, expectativas, etc. Eu e minha esposa já começávamos a planejar nossa primeira filha, que nasceria dois anos depois, a Luiza.

    Um dos amigos que mais me despertou a atenção nesse sentido foi um gaúcho chamado Gésler, mais conhecido pelo sobrenome: Brião. Aquele rapaz era dedicado em tudo o que fazia, era um excelente profissional, responsável e interessado. À época, Brião era pai de Lorenzo, de uns 3 ou 4 anos aproximadamente. Também nessa tarefa, o meu amigo se mostrava primoroso. Falava do filho com muito afeto e saudade e sempre conversávamos sobre a forma como ele achava que deveria ser a criação de uma criança.

    Numa oportunidade, em nossas confraternizações e encontros comuns aos amigos que trabalhavam naquela plataforma, conheci Lorenzo e constatei que era mesmo uma criança educada e alegre, sinais de um lar equilibrado e amoroso onde nem mesmo a ausência do pai durante o período de trabalho é sinônimo de abandono. Está longe de ser!

    Eu e Brião seguimos rumos profissionais distintos. Fui para outra plataforma, ele se qualificou para operar ROV’s (Veículos Remotos submarinos para trabalhos no fundo do mar), um projeto que exigiu grande esforço de sua parte. Mas nunca esqueci uma cena que presenciei e que me fez sentir, antes que eu tivesse minhas próprias experiências, o grande amor de um pai por um filho.

    Estávamos no final do expediente, revisando a programação dos trabalhos e, como já havíamos cumprido todo o planejado, Brião abriu uma bolsa com suas coisas pessoais, sacou um carrinho de brinquedo e o fez girar sobre uma bancada, fazendo inclusive o som de um motor de carro. Olhei para ele surpreso, e ele sorriu meio sem jeito e disse: “já que terminamos tudo, vou brincar de carrinho”. Eu achei engraçado e ele explicou: “meu filho me emprestou esse e eu prometi a ele que iria brincar, pois sempre brincamos juntos”.

    Quantas coisas eu aprendi observando aquela cena inusitada e pitoresca! Brião não apenas manteve a palavra junto ao filho, independente do que eu pensaria a respeito, mas também demonstrou que se lembrava do Lorenzo e dos momentos felizes que tinham juntos e que isso era uma forma de estarem próximos o tempo todo.

    Lorenzo ganhou um irmão, o Valentin, e eu e Brião seguimos mantendo contato e acompanhando, ainda que à distância, o desenvolvimento de nossos filhos. Hoje, eu mesmo passei a compreender melhor o que vi Brião fazer naquele dia, porque sempre que estou embarcado, me apego às lembranças de minha família para aplacar a saudade e me sentir mais próximo a ela.

    O dia dos pais se aproxima e eu queria aproveitar esse espaço para homenagear aqueles que saem de casa para trabalhar, por uma jornada de algumas horas ou vários dias e até meses, deixando seus corações divididos entre suas responsabilidades como pais e como homens, mas sem deixar jamais de reservar o amor e a atenção que seus filhos merecem.

    Feliz Dia dos Pais!