As primeiras duas semanas longe

    Quando comecei a trabalhar embarcado numa plataforma de petróleo no final de 2006, Eliz, minha esposa, e eu ainda não tínhamos decidido ter filhos. A vontade só começou a aparecer mesmo dois anos depois, quando começamos a nos planejar, ir ao médico com esse objetivo, trocar a moto pelo carro, preparar a casa, etc.

    Em Julho de 2008, enfim, a notícia nos arrebatou. Lembro-me do momento em que Eliz pegou o resultado e eu, que cheguei logo em seguida no laboratório porque estava estacionando o carro, pude ver à distância toda a cena: ela pegou o papel, vibrou, abraçou a funcionária do laboratório, começou a agradecê-la por estar grávida – como se fosse ela, a funcionária, que a tivesse engravidado – e caiu no choro. Linda cena! Emocionante e difícil de esquecer. Abraçamo-nos e caminhamos pelos corredores sem dizer uma palavra. Apenas nos olhávamos e sorríamos. Éramos a imagem da felicidade.

    Depois de uma gravidez muito tranquila, acompanhada pela competente Dra. Amanda, e abençoada por Deus, Luiza nasceu em Março de 2009. Começava uma nova fase, muito mais difícil do que imaginávamos. Cólicas, choros intermináveis, cansaço, sono, peito rachado e tudo aquilo que não faz parte do nosso planejamento, por mais que nos preparemos. Tudo era uma difícil novidade para nós com um bebê que nos apresentava uma surpresa a cada instante.

    Eu ajudava bastante mesmo, acordava de madrugada, dava apoio e suporte em tudo, mas onze dias depois do nascimento de nossa filha eu teria que embarcar e ficaria duas semanas trabalhando no mar, deixando a Eliz com toda a responsabilidade e sofrendo bastante com a amamentação. Um de seus mamilos praticamente se soltou num determinado momento. Eu estava apreensivo e angustiado, embora estivesse tudo bem com Luiza, que era uma menininha linda e saudável.

    No dia que embarquei, a sensação era de que eu tinha um guarda-chuva aberto na garganta. Logo na chegada, a bordo, dei uma canelada num degrau de uma escada de ferro e quase chorei de dor e raiva, pois queria estar em casa. Levei as fotos de nossa bebezinha para a plataforma, via e revia a todo instante e mostrava até para desconhecidos.  Embora preocupado, eu estava feliz e orgulhoso, pensando a todo o momento na valentia de minha esposa, em como ela era dedicada e de como eu não poderia ter escolhido melhor companheira para formar minha família.

    Rodrigo
    Rodrigo, em uma das suas idas, embarcado na plataforma de petróleo, no litoral capixaba

    Numa noite a bordo da plataforma, sem conseguir dormir, abri meu laptop para rever os “jornaizinhos” apelidados de “Barriga News” que fiz durante a gravidez da Eliz, os quais eu enviava aos familiares e amigos que acompanhavam por e-mail. Revendo tudo aquilo, inclusive as fotos da Luiza tão dependente e indefesa, chorei em silêncio, preocupado em não acordar meu colega de quarto. Não conseguia me conter e pedia a Deus para os dias passarem rápido. Meu coração estava apertado e me sentia culpado por não estar em casa. Foi horrível! A pior sensação de impotência que já senti.

    Eu tentava manter o foco no trabalho, mas ligava para casa várias vezes ao dia, tentava à distância moderar as tensões criadas pelos hormônios em fúria da Eliz, resolver os problemas que surgiam e saber qualquer novidade sobre nossa filha. Confortava-me o fato de nossas famílias estarem ajudando o tempo todo. Foi muito bom ter morado com minha sogra e minha cunhada naquela época, pois as duas estavam sempre por perto apoiando.

    Eu sabia que o trabalho era importante para manter Luiza e Eliz com o máximo de conforto, mas o dilema deixava meu coração em pedaços. Acho que com Lavínia, nossa segunda bonequinha, que está a caminho, aquelas experiências nos ajudarão bastante e saberemos continuar administrando todas essas nuanças de uma família que precisa se separar por um período, como acontece com outros tipos de profissionais: marinheiros, caminhoneiros, congressistas, comissários de bordo, etc.

    Há outros tipos de empregos, outras remunerações e condições que me permitiriam estar em casa todos os dias, mas em contas rápidas, duas semanas longe de casa me proporcionavam três semanas ao lado de minha família e minha decisão era fazer esse tempo com ela ter a melhor qualidade possível. Assim administrei aquela fase de aflições, temores, dúvidas e muitas novidades.

    Hoje acredito que Eliz, Luiza e eu nos saímos muito bem, afinal eu sempre voltava pra casa, agradecia pelo esforço e pela compreensão de minha brava mulher, abraçava, beijava, apertava e amava minha filha o máximo que eu podia. Isso era bom e fazia tudo valer a pena, então era só o que importava.

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