Bate-papo com um papai moderno

    A partir de hoje aqui no blog, o papo também é de homem para homem. Enfim, um espaço testosterona para dividirmos nossas experiências, dúvidas, angústias e frustrações paternas sem medo de ouvir piadinha machista dos amigos.

    Vocês, mamães, que quiserem espiar, fiquem à vontade. Quem sabe descubram tudo (ou quase tudo) que, nós, os “pais modernos”, conversamos na roda de bate-papo com os amigos. Não pensem vocês que o assunto é só futebol, cerveja e bund…hãm, digo, política.

    Nós nos permitimos trocar experiências mais profundas a respeito de nossos filhos e não estou falando propriamente em promover comparações competitivas. “Meu filho joga melhor”. “Minha filha é a mais inteligente”. “O meu é mais esperto”. O papo agora é mais equilibrado, envolve emoções de quem está cada dia mais presente e participativo na relação afetiva e prática que pede a criação de um filho.

    Vocês sabem do que estou falando, as mulheres queimaram sutiãs, conquistaram direitos, mudaram a história. São competitivas, organizadas, sensíveis, fortes, metódicas, persistentes e determinadas. Contribuíram para a mudança no modelo de estrutura familiar centralizada na figura do pai. Administram estudo, carreira, filhos, gato cachorro, papagaio, casa e a nós mesmos.

    Ufah, não há como negar a mudança de cultura que promoveram. Tudo isso porque se organizaram e foram à luta. Naturalmente os papéis foram invertendo e, se por um lado as mulheres estão muito mais atuantes no cotidiano social, por outro nós estamos mais íntimos dos assuntos domésticos. As mulheres fizeram por elas e por nós, viva o fim da sociedade patriarcal.

    O fato é que, a natureza instintiva e genética de fêmea as preparou melhor para as rotinas relacionadas aos filhos. Quanto a nós, fomos preparados para fazer lanças, sair à caça, alimentar a prole, proteger. Sim, isso era no tempo das cavernas, mas há apenas algumas décadas as coisas mudaram de fato.

    Por conta de todo esse vício histórico e cultural é que muitas vezes, mesmo sem perceber, pessoas do chamado “sexo frágil” reprimem nossas iniciativas paternas com os filhos:

    Ela: “Amor, não precisa colocar tanta pomada no bebê. Assim vai protegê-lo das assaduras pelos próximos dez anos”.

    Ele: (A gente só quer garantir que o serviço ficará bem feito)

    Ela: “Benhê, primeiro lava a cabeça do bebê, depois o corpo. Um com shampoo, outro com
    sabonete neutro, mas hoje não é pra lavar a cabeça, tá?”.

    Ele: (A gente acredita que, neste caso, a ordem dos fatores não altera o produto: cabeça, corpo, shampoo, sabonete, hoje, amanhã. Pra que complicar?).

    Ela: “Querido, segura o bebê delicadamente, canta uma musiquinha de ninar, balança três vezes, dá um passo pra frente, depois um passo pra trás. É assim que ele dorme”.

    Ele: (Se a gente o coloca no ombro, sacode, canta o hino do time e ele dorme, é porque está funcionando, concorda?).

    Entre outras “orientações” costumam finalizar com:

    Ela: “ok, deixa que eu mesma faço”.

    Não quero sustentar aquela máxima de que homem é tudo igual, mas fica difícil não admitir que, sem a supervisão feminina muitos da minha espécie são verdadeiras “crianças grandes” (acho até que, em algum momento, todos são), mas ao menos uma vez nos deixem fazer as coisas do nosso jeito. É duro passar o dia se esforçando pra cuidar da alimentação, do lazer, da higiene dos filhos e receber um laudo no final do dia relacionando tudo que vocês fariam diferente.

    Outro dia saí do trabalho, peguei meu filho de um ano e meio na casa dos avós, chegamos mais cedo em casa, nos livramos das bolsas e mochilas, fui até a geladeira pegar a gelatina para dar a ele. Mudei de ideia, “não vamos comer, vamos brincar”. Incentivei-o a colocar as mãos na tigela. Ele me olhava meio sem acreditar, timidamente foi se permitindo. Li em algum lugar que ajuda na relação com a comida e promove uma atividade sensorial bastante interessante. Ele adorou, eu me diverti. Filmei tudo.

    Você pode assistir aqui se quiser.

    Não preciso dizer nada sobre a bagunça. Antes de a mamãe chegar limpamos tudo e ela nem percebeu, mas viu a tigela suja sobre a pia e disparou: “Ele comeu toda a gelatina?” respondi que não, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela completou: “Ô Chêro, então por que jogou fora? Agora quero dar pra ele e não têm mais”. Entendi, relevei. Certamente o dia dela foi cansativo, como havia sido o meu também. Quando vir a filmagem, ela irá entender o valor daquela brincadeira.

    Desde que não comprometa a saúde e a segurança dos filhos, nós os pais, precisamos praticar a individualidade afetiva que é cuidar da cria enfrentando as dificuldades a que estivermos sujeitos. Podem ter a mais absoluta certeza, se precisar, vamos pedir socorro, aliás, isso não afeta mais nossa masculinidade.

    Evidente que vocês, mamães, devem continuar evitando que a gente coloque papinha quente na boca da criança ou invente de saltar de paraquedas com o filho no colo. Também podem corrigir o gosto duvidoso que alguns de nós, papais, temos ao vestir os filhos: camiseta laranja, bermuda roxa, meias amarelas e tênis com luzinhas verdes realmente é uma combinação bizarra, mas façam isso de modo sutil, neste e em todos os outros casos que discordarem, nos mostrem qual sua opinião, apontem outros caminhos, ao invés de simplesmente discordar.

    Nós, ”pais modernos”, também queremos fazer nossa revolução, nossa mudança de hábitos, de cultura. Não queremos invadir o espaço legítimo que é das mulheres, mas vamos pensar juntos: quem sabe, no futuro nossos filhos e filhas sejam beneficiados por esse novo modelo familiar. A cooperação mútua no que tange a criação dos filhos não deve rotular as iniciativas com “certos” ou “errados”, e sim, comprovar que os estilos diferentes se completam. O casal precisa comprometimento, dedicação e compreensão. E olha que não me refiro somente a casais casados que vivem juntos na mesma casa.

    É preciso reciclar. Mudança de cultura leva tempo, requer muita paciência, determinação e persistência, mas isso vocês, mulheres, já nos ensinaram que é possível, então, vamos juntos praticar o exercício diário de reaprender sobre o papel do pai e da mãe na criação e educação dos filhos. Até porque, se tivermos que queimar alguma peça íntima em protesto pelos nossos direitos, será a cueca, aí a coisa não será assim tão simpática como foi o movimento feminino tempos atrás.

    Mas, peraí. O papo não era pra ser de homem pra homem?

    Ah, os tempos mudaram.

    Quero agradecer o convite para fazer parte deste espaço e dessa equipe tão cheia de bom astral. Fico feliz de poder contribuir e me sinto privilegiado desde já. Não Tenho a pretensão da verdade absoluta, nem pretendo estereotipar comportamentos, apenas promover a interação, a troca de experiências vividas no cotidiano de pais, mães e filhos e o debate, seja o tema superficial, bem humorado, sério ou contundente.

    É isso. Grande abraço e até a próxima.

    Miguel Vieira Jr.