Bem vinda, magreza ou a Mônica do Gibi

    Acordei com o sol entrando pela janela, Rafael já havia saído do quarto. No caminho para o banheiro, me vi no espelho. Parei, olhei, respirei fundo.

    – Bem vinda, magreza!

    Não era magreza, naturalmente, mas o que eu estabeleci para mim mesma como “corpo ideal”, baseado no custo-benefício “bom sem esforço”. Otimista, julguei ter voltado para os 54 quilos de antes da gravidez. Estava pronta, portanto, para entrar, ainda que tardiamente, na moda top cropped.

    Sem a peça no armário, fui obrigada a recorrer a um top normal que, combinado com uma calça de cintura baixa, me pôs meio insegura frente ao espelho. Mas o dia do bom dia magreza precisava de uma comemoração: saí do quarto com a barriga de fora e meu orgulho.

    Miguel ouviu o girar da maçaneta e veio me buscar do corredor. Mal pôs os olhos em mim, ele gritou:

    – Gorducha – e saiu correndo.

    Instintivamente corri atrás dele. O alcancei na sala, ofegante:

    – Gorducha – correu novamente.

    Dessa vez não corri. Fiquei paralisada, humilhada. Até que ele veio me buscar, com um bico:

    – Corre, mamãe, corre! Eu gritei gorducha, baixinha, dentuça e roubei seu coelho.

    – Seu moleque!

    Rafael me esperava para pegar uma carona e, alheio a nossa correria, foi me apressando:

    – Vamos, tô atrasado!

    – Estou pronta, querido – respondi – só preciso pôr uma blusa.

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