Cartas para meu filho

    Qual a melhor maneira de lembrar de alguém senão as memórias? Nossa colunista Patrícia Bravin relata como "guarda" as lembranças de (e para) seu filho.

    “Um frio na barriga, um silêncio agoniante e alguns segundos que pareciam eternidade até aparecerem duas barras azuis no teste de gravidez. Era você, filho. Era eu, mãe. Mãe? Nossa! Quanta coisa mudava a partir daquele momento em que eu, sentada no chão do banheiro, dava gargalhadas que vinham do fundo da alma ou talvez de dentro do útero. E os sentimentos que poderiam ser ambíguos, naquele instante, pareciam se completar: medo e coragem, dúvida e certeza… E como você saberia disso?”

    Essas são as palavras que abrem o diário que escrevo para o meu filho. Desde o conhecimento da gravidez, coloco no papel tudo o que vivemos, em forma de cartas. Faço questão de escrever à mão, mesmo com rasuras e rabiscos. Hoje ele tem 10 meses e um caderno quase cheio de lembranças. Tem ali o tubinho do teste de farmácia e o papel do laboratório, fotos do enxoval, das lembrancinhas e do quartinho que decoramos, a imagem das carinhas nas ultrassonografias, a pulseirinha do centro cirúrgico e o cartão de pré-natal. Até o sapatinho que saiu da maternidade está colado no papel.

    Eu também coloco no nosso diário as principais notícias nacionais e internacionais para que ele saiba o que acontecia quando ele nasceu. Eu sei que, até lá haverá “Googles” e afins para ele pesquisar, mas nada como a história contada pela mãe. E tem também um pouco da vida de pessoas que nos ajudam no dia a dia como a vovó Ivone que deixou a casa dela para cuidar da nossa, mesmo doente. E tem até um pouco do meu “misticismo”. Eu acredito que deixamos energia no que tocamos e, por isso, reuni etiquetas e recortes de embalagens dos presentes que ele ganhou. São várias páginas lindamente coloridas.

    E não pense que eu coloco ali só os “louros”. Nada. Contei o quanto chorei no pós-parto, o quanto tive que responder sobre a formação de uma família fora dos moldes e o tanto que me senti sozinha madrugadas a fio. O que ele vai fazer com isso? Eu espero que ele tenha ali muitos motivos pra se sentir amado, que saiba que a vida nem sempre é fácil e que é preciso coragem pra vencer os medos e que, mais que tudo, aprenda a ter gratidão. E se não servir para nada disso, ao menos terá sido uma deliciosa fonte de lazer pra mim que amo escrever.

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