Como se fosse a primeira vez

    Ser pai à distância não é uma tarefa fácil. Mas, aos poucos, a criança se acostuma e já conta nos dedos o momento de se reencontrar com seu super-herói!

    Ser pai à distância não é uma tarefa fácil. Mas, aos poucos, a criança se acostuma e já conta nos dedos o momento de se reencontrar com seu super-herói!

    Estou em minha segunda “aventura” na experiência peculiar de ser pai. Como alguns de vocês já acompanharam por aqui, minha segunda filha, Lavínia, dará o ar da graça no início de Julho e apesar de não ser mais um novato, as incertezas e o frio na barriga parecem desconsiderar esse fato. Não existem grandes diferenças entre uma gestação e outra, pelo que tenho acompanhado nos últimos seis meses, portanto, tudo acontece como na primeira vez. Mas o título deste texto tem outra intenção, vocês já vão entender.

    “Como se fosse a primeira vez” é o nome em português de um filme de 2004 (50 First Dates) com Adam Sandler e Drew Barrymore. Uma comédia romântica onde a personagem Lucy, vivida por Barrymore, perde a memória recente após um acidente de trânsito. A cada manhã ela esquece o dia anterior, o que incluía seu par romântico, o conquistador Henry, vivido por Sandler que se apaixonara por ela num encontro casual. Todos os dias seu enamorado deveria reconquistá-la, esperar que ela também se apaixonasse novamente para então receber seu coração novamente.

    De acordo com especialistas, a memória de curto prazo de um bebê começa a funcionar entre seis meses e um ano de idade. Antes do terceiro mês, pelas descobertas recentes de pesquisadores, na percepção dos pequeninos, apenas a mãe é importante para o bem estar do bebê que sequer sabe quem é aquela figura masculina que está ao lado da mamãe a quem ele aprenderá a chamar de pai. Apesar de reconhecê-lo após o segundo mês, bastam alguns dias longe de casa para o bebê simplesmente esquecer a existência desse cidadão. Não vou me deter ao fator psicológico de longo prazo e na importância real do pai na vida de uma criança, não é isso que pretendo dizer.

    Quando eu precisava embarcar para o trabalho, passando duas semanas fora, Luiza (nossa primeira filha hoje com cinco anos) me esquecia completamente. Nos meus retornos para casa, ela, com aproximadamente cinco meses, me estranhava quando eu surgia na sua frente e até chorava se eu tentasse pegá-la no colo. Imaginem a cena: eu chegando louco de saudade, após 15 dias de confinamento à distância, sedento por um abraço da minha bebezinha cheirosa e ela escondendo o rostinho e chorando. Crueldade!

    Assim como no filme, eu tinha que gastar algumas horas para reconquistá-la e, lentamente, adquirir sua confiança, até que ela se deixasse abraçar. Isso exigia um esforço enorme de paciência e habilidade, com o qual eu tive que lidar até que sua pequena memória se desenvolvesse e ela fosse capaz de se lembrar de mim no reencontro.

    livia
    Luiza ao lado da irmã Lavínia (no monitor), durante exame de rotina

    A primeira vez que eu retornei para casa e Luiza se lembrou de mim foi inesquecível! Ela me viu, sorriu, se lançou em minha direção e tocou meu rosto carinhosamente com a mãozinha. Depois, abraçou forte o meu pescoço, voltou a se afastar e segurar meu rosto com as duas mãos, como se dissesse com seus olhões surpresos: “Ei! Eu sei quem é você! Senti sua falta…” e novamente se agarrou em meu pescoço. Que momento sublime! Que alegria! Valeu a pena esperar.

    Depois disso, cada chegada minha era uma festa e um momento para recordar: a primeira vez que ela disse papai ao me rever, mal podendo segurar o sorriso; a primeira vez que ela conversou comigo ao telefone; a primeira vez que ela, já dando os primeiros passos, caminhou em minha direção; a primeira vez que ela correu e pulou no meu colo; a primeira vez que ela contou os dias para eu chegar; a primeira vez que ela chorou e teve febre porque eu embarquei e a primeira vez que eu a busquei na escolinha de surpresa quando cheguei do trabalho.

    A Luiza entende porque eu preciso me ausentar, sabe que eu vou chegar e ela vai poder pular no meu colo, me abraçar, beijar, chamar de papai, dizer que me ama e grudar em mim por uns dois dias sem me deixar fazer mais nada, sempre dizendo: “papai, vamos brincar? Papai, me conta uma história? Papai, me limpa? Papai, papai…”, só para me ouvir responder.

    E lá vem a Lavínia agora, para me fazer reviver tudo isso novamente… Como se fosse a primeira vez.

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