Criança precisa ter pressa?

    Uma reportagem publicada em Época, desta semana, assinada por Flávia Yuri e Margarida Telles, explica o que é a doença da pressa, um fenômeno contemporâneo com consequências físicas. São informações úteis para diferenciarmos o normal do doentio. É importante sobretudo para nos policiarmos quanto à origem de algo que conhecemos em maior ou menor grau: a ansiedade.

    Como mãe, sei o quanto essa “doença” ronda nosso papel em torno dos filhos. Você provavelmente conhece alguém que não deixa o filho fazer nada – vestir-se sozinho, amarrar o tênis, escovar os dentes, comer – porque está sempre com pressa – ou não tem paciência para esperar. Ainda que não se chegue a tal extremo, que rouba da criança o direito à aprendizagem, quem não apressa as crianças para elas saírem do carro, do banho, da frente do prato? Por que enrolam tanto as pequenas?

    Quando percebi que eu ganhava míseros segundos ao repetir o comando “anda, por favor, desça do carro” para minha filha mais velha, várias vezes, parei. Falo uma vez só e fico olhando. Eu me seguro, com relativo sucesso. Ela acaba saindo. Por que então a neura de repetir “anda, sai”. Vou chegar mais cedo a algum lugar por causa disso ou apenas dar uma contribuição desnecessária para que ela se torne ansiosa?

    Não sei se vocês sabem, mas depois que você abre a porta do carro para a criança sair, ela desce da cadeirinha, abaixa para pegar não sei o quê no chão, aí cai, levanta, ou fica parada pensando na morte da bezerra e resolve te contar alguma coisa importantíssima antes de sair do carro, como se não pudesse fazer tudo ao mesmo tempo, como nós! Isso se não resolver passar para o banco da frente e fingir-se de motorista – situação que merece uma intervenção um pouco mais clara, sobretudo se você precisa voltar ao trabalho e não tem a vida toda para ficar dando uma de paciente a uma hora dessas. Percebeu? São distinções que cada um precisa fazer na hora em que o problema se apresenta, até porque isso vai se ajustando de acordo com a compreensão dos filhos.

    Eu tenho me esforçado para prestar atenção à inutilidade de pedir pressa em determinados momentos. É meu pequeno esforço para não incutir ansiedade nas minhas filhas, embora eu saiba que a construção de uma personalidade seja algo muito mais profundo. Muitas vezes repetimos os comandos por vício, porque estamos condicionados a isso. Ganhamos uma gota de tempo que não se soma à nada. É certo que todos temos as nossas agendas, com horários a cumprir, compromissos aos quais comparecer, consultas agendadas, telefonemas acertados. Somos adultos e responsáveis. Precisamos pensar no tempo do engarrafamento, de tudo, e lá estamos nós, eternamente com pressa apressando também as crianças.

    A verdade é que precisamos buscar o equilíbrio nas nossas demandas porque uma das lições mais difíceis na arte de educar é ensinar a criança a esperar. Bebês não esperam para comer. Berram. E são atendidos logo porque ninguém agüenta ficar ouvindo aquele choro desesperado por muito tempo. Eles despejam suas necessidades nas fraldas. E são limpos imediatamente. À medida que crescem, precisam aprender a se controlar, a pedir e, a mais difícil de todas as artes, a esperar.

    Como podemos exigir que eles aguardem se nunca temos tempo para esperar também?

    Eu tinha ido em casa para levar a mais velha à escola. Ela gosta. Resolvi não almoçar para não atrasar o esquema, porque os atrasos acabam sendo minha culpa. Enquanto nos preparávamos para sair de casa, a irmã caçula, do alto de seus dois aninhos, veio se despedir repetindo a ladainha que se acostumou a ouvir: “anda, Lelê, qui você tá atasada”. Pois é.

    Fonte: ÉPOCA

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