Eu não ajudo a cuidar de minhas filhas

    O colunista Rodrigo Rossoni fala sobre a divisão de tarefas entre o casal na hora de cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos

    “O importante é que numa relação de ausências e presenças, de responsabilidades à distância, a colaboração é o principal catalisador da parceria”.

    Há algum tempo eu recebi de minha amiga na Argentina, Ana Kiehr, como indicação de leitura, um texto do psicólogo espanhol Alberto Soler Sarrió intitulado “Yo no ayudo a mi mujer con los niños ni con las tareas de casa” (eu não ajudo a minha mulher com as crianças nem com as tarefas de casa). Para quem quiser ler o texto original, basta clicar aqui, pois apesar de estar em espanhol, a tradução é bem intuitiva, mas vou tratar aqui do conteúdo dessa carta, portanto, se você é mãe e/ou esposa, não fique brava ainda, apesar da insinuação machista do título.

    O texto de Sarrió me alcançou em alguns pontos. Nele, com um exemplo cotidiano de uma abordagem infeliz de duas senhoras no supermercado, o psicólogo mostra como o perfil das famílias está mudando, embora ainda convivamos com o pensamento crasso de que as tarefas do lar são de responsabilidade da mamãe, enquanto o papai fica com o trabalho duro, como se as tarefas do lar fossem uma tremenda moleza!

    Como os leitores sabem, eu trabalho embarcado durante quatorze dias e, após essa jornada, chego a minha casa para um período de folga merecido. Preciso descansar, tenho necessidades individuais, etc. Como poderia ajudar minha esposa a cuidar de nossas filhas e da casa? Assim como o autor da carta acima, eu não ajudo. Ajudar pressupõe um limite de responsabilidades e significa que não é você o ator principal numa tarefa. Se eu a ajudasse, estaria admitindo que o papel de cuidar de nossas filhas e de nossa casa pertence a ela, e isso definitivamente não estava em nosso contrato de casamento, nem implícito em nossa decisão de termos filhos.

    Durante quatorze dias, quando estou fora, minha esposa Eliz fica o tempo todo empenhada nos cuidados diretos com as nossas filhas Luiza e Lavínia. Em algumas necessidades indiretas eu posso colaborar, mas é obvio que a parte árdua da tarefa acaba sobrando toda para ela. Quando eu retorno do trabalho, ela também está cansada e desgastada. Não seria justo que apenas um de nós descansasse. Por essa razão eu lavo a louça se ela cozinhou, cuido das crianças enquanto ela trata de algum assunto pessoal, vou às reuniões de pais na escola e levo para as atividades extras. Isso não é uma ajuda, é o meu papel.

    Nada disso significa compensação, nem mesmo que minha esposa não faça mais nada depois que eu volto para casa. Significa que temos a compreensão de nossas responsabilidades, seja para com nossos filhos, seja para um com o outro. De minha parte não me sinto culpado porque passei duas semanas fora enquanto ela foi mãe e dona de casa 24h por dia, enquanto ela tem a mesma consciência, porque sabe que o meu trabalho é importante para o sustento de nossa família.

    Ao final de um período que inclui um tempo embarcado e outro em casa, a divisão dos fardos deixa tudo mais fácil para ambos e essa harmonia se reflete em nossa relação. Até mesmo Luiza já entende a importância da colaboração nas tarefas, por isso já arruma a própria cama ao acordar e lava o prato ou o copo depois de usá-los… Ok, nem sempre de forma voluntária. Mas o importante é que numa relação de ausências e presenças, de responsabilidades à distância, a colaboração é o principal catalisador da parceria, que também tem elementos como a lealdade, a empatia e reconhecimento em sua fórmula.