Limites não adoecem nossos filhos

    Até que ponto ceder a todas as vontades de uma criança é saudável? É possível que eles adoeçam pela frustração de ouvirem um "não" de seus familiares, educadores ou de um estranho?

    Neste texto eu gostaria de falar sobre um tema bastante polêmico, sem uma pretensa opinião decisiva (ou especializada) sobre o assunto: LIMITES! Até que ponto ceder a todas as vontades de uma criança é saudável? É possível que eles adoeçam pela frustração de ouvirem um “não” de seus familiares, educadores ou de um estranho?

    Há cerca de duas semanas “viralizou” nas redes sociais a história de uma moça que não permitiu que o filho de uma amiga brincasse com uma réplica colecionável de um personagem dos quadrinhos, que estava guardada em seu quarto (confira aqui). De acordo com o relato, o menino foi chorando para casa diante da negativa da dona do boneco e a mãe dele parece não ter lidado bem com sua frustração. Foi então que as duas protagonizaram um diálogo ríspido – que não será o foco deste texto.

    A dona da réplica se chama Natália Freitas. Entrei em contato com ela, que foi totalmente receptiva quando eu quis saber detalhes do que houve. Natália me disse que explicou o porquê à criança. Ou seja, ela não disse apenas “não”, parecendo uma chata que não permitiria que uma criança – que obviamente não entende a diferença entre um boneco colecionável e um brinquedo – tocasse em algo frágil e até mesmo perigoso (o boneco fica numa caixa de vidro que poderia quebrar e machucar a criança, de acordo com ela).

    É exatamente como eu penso que devo explicar as coisas às minhas duas filhas, sempre que digo não. Então, no meu sentir, Natália agiu corretamente na parte que toca a criança, já que nem pretendo avaliar aqui o comportamento de duas pessoas adultas numa discussão.

    É muito importante dar explicações às crianças, que são curiosas e interessadas por natureza. Diante disso, “porque não” é mesmo uma resposta inaceitável para eles, acreditem! De fato, quem não parece ter concordado com a explicação da negativa foi a mãe do garotinho. Ela chegou a dizer que o filho poderia ficar doente por uma vontade não atendida e que o filho “brincaria sim” com os bonecos de Natália.

    Perguntei a especialistas próximos a mim se isso era possível, ou seja, uma criança poderia ficar “doente de vontade”? Minha prima, Mariana Lombardi, que é psicóloga e sempre me socorre quando tenho dúvidas na área, me disse que a vontade não adoece ninguém, pelo contrário: a falta é a origem do desejo. Em outras palavras, ter vontade é bom para que o indivíduo queira as coisas e se mova para alcançá-las. Ela completa: é muito mais comum ficar “doente” pela frustração de não ter limite (por ter quase tudo e ficar sem algo) do que por ouvir um “não” razoável.

    Ouvi também do médico de minhas filhas, dr. Cid Ataíde, pediatra há mais de quarenta anos, que fisiologicamente é possível adoecer pelo stress (por algum trauma, separação, morte na família, etc.), mas não pela vontade de algo que seja negado a uma criança. Isso seria bastante incomum. O mais saudável seria ensiná-las que o mundo não existe para atender a todos os seus anseios. Elas poderão se tornar pessoas mais equilibradas ao crescer aprendendo a conviver com frustrações cotidianas.

    Essas opiniões profissionais corroboram com meu conhecimento empírico: crianças sabem lidar muito bem com os limites e não adoecem por isso. Os pais não! Nós é que sofremos quando nossos filhos querem algo (ou tudo) e temos que dizer não. Alguns pais acham que o dinheiro pode suprir qualquer falha e que o “presentear” é a chave da felicidade de nossos filhos.

    Com essa conduta, os pais mimam a criança, constrangem as outras pessoas a atenderem aos desejos mais estapafúrdios de seus filhos que, por sua vez, se tornam cada vez mais rancorosos e frustrados diante da realidade chocante de que ninguém é obrigado a aturar suas picardias (ou a de seus pais).

    Acreditem em mim: já passei algumas vezes pelo dilema de ver minhas filhas querendo algo que até posso dar, mas do qual elas não precisam. O que faço é procurar dosar as coisas, cedendo quando acho que devo e sendo firme quando é necessário. Mas a decisão de dar algo, ou não, é minha e não das minhas filhas. Do contrário, os papéis invertem. Não cedo a chantagens e não romantizo doenças para dar dengo a elas. Se uma delas (especialmente a mais nova, de três anos) chora querendo algo, primeiro ela terá de se acalmar, para somente depois conversarmos sobre o assunto. Não negocio com a pirraça ou cara emburrada, nem de minhas filhas, nem dos filhos dos outros.

    Uma criança quer brincar com tudo que se pareça com um brinquedo, mesmo que seja um rifle AK-47. Porque seu filho quer, significa que ele pode? Imaginem aqueles desinfetantes sanitários antigos, cujas embalagens se pareciam com um patinho, nas mãos do seu filho de quatro anos? Portanto, quem deve explicar o que é permitido brincar ou possuir, é o adulto responsável!

    As crianças também tentam nos manipular com o choro, mas nem sempre choro é dor ou sintoma de doença. Muitas vezes nem percebemos que nós é que estamos desrespeitando o espaço do outro através de nossos filhos… Acontece! Os pais não sabem de tudo que acontece ao redor deles ou, às vezes, estão só distraídos.

    O fato é que, mesmo que a verdade salte aos olhos, algumas pessoas pensam que o mundo deve servir tudo aos seus filhos, como eles próprios fazem em casa. Aí sim eu acredito que a sociedade, baseada na falta de limites, se tornará irremediavelmente doente.

     

    Rodrigo Rossoni é pai de Luiza e Lavínia, marido da Eliz e trabalha em alto mar.

    Encontre Rodrigo no Twitter: @RodrigoRossoni