Miguel não fala mais percoço

    _ Miguel não fala mais percoço _ observou com alguma tristeza meu irmão, que transgredia seu próprio ensinamento.

    No fim de semana, quando fomos às montanhas, meu filho reclamou durante todo o trajeto:

    _ Mamãe, este cinto está atrapalhando meu percoço _ choramingava, chateado, fazendo Giulliano rir.

    Planejávamos sair cedo, mas Miguel acordou tarde e ainda por cima demorava a despertar. Ficou parado, ancorado ao sofá, de pijama. Aquele olhinho mais puxado de acordar.

    _Vamos, meu filho, vamos viajar com tio juju!

    _Mas eu não quero… _ falou arrastado.

    _Não, filho?! Por quê?

    _Porque eu tô de faldinha! _ disse molequemente, coisa que só dá para saber ouvindo.

    _ Ah! Vamos, filho! Lá tem a Pedra Azul, que é uma pedra enorme e azul, igual a esse sofá.

    Miguel, que já tinha começado a se animar, murchou ao final da frase:

    _Este sofá é enormem? _ perguntou, decepcionado.

    Disse que meu irmão transgrediu seus próprios conselhos e é verdade. Quando Miguel aprendeu a falar Beto, foi um chororô geral. É que todo mundo chama meu pai de Beto, mas só Miguel tinha seu próprio jeito de falar “vovô déto”, alongando indefinidamente o ‘e’.

    _Vovô deeeeeeeeéto!

    Giulliano repreendeu a galera: deixem o garoto falar certo. Hoje, porém, meu irmão chorava o pescoço que meu filho aprendeu do dia para noite. É assim mesmo, os meninos crescem. Vão deixando de lado suas próprias criações fantásticas, suas possibilidades todas.

    Esses dias inventei um caderninho de anotar as frases particulares de Miguel. Uma tentativa ingênua de minimizar essa sensação de descontrole, do tempo escapando às mãos. Agora, por exemplo, registrei “de você”, que Miguel usa como pronome possessivo; “na minha trás”, que diz quando quer que algum amigo desça logo em seguida no escorregador e “Buslaidias”, o nome do amigo do Woody.

    É inútil, sei. Já disse que o garoto cresce.

    Por que essas crianças crescem? Perguntava meu pai outro dia, quando nós insistíamos em fazê-lo.

    “Mamãe, o papai quer picolé de canhinhondete com pera e maça”, disse Miguel, sabendo-se brincando. O moleque já sabe os sabores dos picolés, mas ontem na praia – foi ontem juro – passou o moço com seu carrinho. Miguel correu:

    _Moço, eu quero de leitecomnensau!

    _Leite condensado? _ perguntou o moço, ignorante do dialeto do menino.

    _Leite com Nescau _ traduzi.