O cuspe

    Rafael abaixou a mão para me mostrar. Olhei de perto, examinei: era, sem sombra de dúvidas, um cuspe.

    Lembrei-me de quando cheguei do colégio, criança, terminava a oitava séria. A professora pediu que informássemos definitivamente quem participaria do baile promovido pela escola. Lá em casa, meus pais já haviam decidido que sim, mas um amigo me disse: “Comemorar o Fundamental, Natasha? Fala sério, é um dinheiro jogado fora. Passamos pela oitava série, e daí? Grandes coisa.”

    Levei o discurso para casa, mas papai não ouviu até o fim. Antes, me repreendeu fortemente com uma longa fala que não me lembro, mas lembro que ao final ele disse: minha filha, você não sabe com que alegria se comemora cada vitória de um filho. Deu fim ao assunto, e fomos ao baile.

    Chegamos tarde, falo de hoje, Miguel cansado, quase dormia, fomos direto para o quarto. Só dessa vez, pensei, vou escovar os dentes dele na cama. Rafael manteve as mãos em baixo da boca, para aparar a babinha que escorre.

    Como de costume, ao final da operação, eu disse: filho, não engula, cuspa. Criança nessa idade ainda não cospe, mas sempre digo, que é para ir aprendendo.

    Pois cuspiu. Rafael olhou a mão. Deu um pulo. Não era babinha que nada, era cuspe.

    _Ele cuspiu, Natasha. Cuspiu. Olha aqui.

    Foi uma alegria. Era um cuspe. Um legitíssimo cuspe!