O encontro

    Depois de uma longa espera, o encontro. Tá curioso para saber como foi o momento em que nossa colunista Liandra Senna viu seu filho pela primeira vez? Então, leia e se emocione!

    Antes de qualquer coisa, para entrar no clima deste post, dê uma lidinha no anterior, só para relembrar, aqui.

    Então, estávamos no carro. Eu e meu irmão. O caminho do centro da cidade até o hospital leva poucos minutos, mas naquele dia, o tempo andava mais rápido. Parecia que eu havia envelhecido 10 anos de tanto esperar o grande encontro. O silêncio do carro só era cortado pelos meus suspiros.

    Chegamos ao hospital, entramos na recepção e a recepcionista falou:
    – Boa tarde senhora.
    – Oi. Eu quero ir à UTI infantil.
    – Na UTI? Mas, o acesso é restrito.
    – Posso falar com fulana de tal (não me lembro no nome da assistente social do hospital)?
    – Ela não está na sala.

    A recepcionista percebeu que alguma coisa estava errada e antes de conseguir me perguntar eu já fui falando, eufórica:

    – Vim ver meu filho. Quero dizer, acho que será meu filho. Ai, não sei bem, mas é uma criança que está esperando a mãe, que no caso sou eu.

    A recepcionista, ainda sem entender nada, apontou para a UTI.

    Fomos eu e meu irmão, andando. Não, correndo.

    Abrimos a porta e vi umas 5 crianças. Fiz carinho em todas elas e a médica, nada simpática, chamou minha atenção explicando que eu não podia tocar nas crianças. Pedi desculpa. Ela me ignorou.

    Logo a assistente social abriu a porta e falou: eles vieram ver a criança da adoção.

    Meu irmão chorava e andava de um lado para o outro. Eu, parada, esperava que alguém fosse me abraçar. Só que não. A médica me olhou fria, puxou uma cadeira e, ainda sem me mostrar a criança, foi lendo a ficha médica dela. Longa, muito longa. Cheia de problemas que eu sinceramente não escutava.

    Foi então que uma enfermeira, de olhos azuis lindos, me levou até o berço e me mostrou ele, vestido de laranja, com fitas crepes prendendo a roupa que era duas vezes o tamanho dele.

    O que eu me lembro desse momento? Muito pouco, mas o suficiente. Ele tinha os olhos grandes, era muito pequeno e dormia. Não, não era lindo como nas novelas. Não, não tocou uma música de fundo como nas novelas e não, não ouvi sinos. Foi simples, silencioso.

    Olhei para a médica e perguntei se podia pegá-lo no colo. Peguei. Meu Deus, como era pequeno.

    na-maternidade
    Liandra com Miguel na maternidade

    pezinhos-na-maternidade
    Os pezinhos fofos dele, ainda no hospital

    Percebi que acima de todos os berços tinha uma etiqueta com o nome da mãe e da criança. Na etiqueta dele estava escrito João Pedro. Só isso. Depois fiquei sabendo que o nome foi dado pela enfermeira, afinal de contas, criança tem que ter nome, né?

    Naquele dia ainda não pude levar o meu filho para casa. Sai do hospital atordoada. Foi uma noite longa e a manhã chegou sem percebermos. Eu e meu marido fomos para o hospital. Estava na hora dele conhecer a criança. E conheceu. E naquele momento nascia um pai. O melhor que eu conheço, aliás.

    Passei por um mini curso sobre banho, alimentação, horários dos infinitos remédios que ele tomava e chegou a hora de ir embora. Minha sogra tinha corrido em uma loja e comprado uma roupinha. Deixei para trás quase tudo que ele tinha: umas 2 roupas e fraldas doadas por mães que passaram por alí. Mas levei uma roupa especial que a enfermeira me entregou com olhos cheios de água dizendo: essa eu comprei para ele. Era uma roupa do flamengo para alegria do meu marido, agora pai também.

    Miguel foi João Pedro por 2 meses, enquanto ficou internado. E foi muito amando por um par de lindos olhos azuis. Sabe a etiqueta que fica acima do berço? A enfermeira havia trocado. Agora ela tinha os seguintes dizeres: João Miguel. Mãe: Liandra.

    chegada-do-MiguelFamília comemora a chegada de Miguel

    A sensibilidade daquela mulher de olhos claros, que havia ouvido que eu gostaria que ele se chamasse João Miguel, a fez reescrever a história do meu filho. Literalmente reescrever. Trocou a etiqueta porque agora ele tinha um nome dado por uma mãe. O nome mudou um pouco. Tiramos o João. Mas a mãe continua a mesma. A única. Eu.

    [sharethis-inline-buttons]