O fim de uma longa espera

    Imagina chegar de férias e receber a notícia que você esperava a um tempão? A nossa colunista Liandra Senna passou por isso. Ela conta pra gente que espera foi essa que acabou, em um texto emocionante. Confira!

    Destino, meu caro. Destino.

    Era março, e eu estava voltando de uma viagem grande de férias, bem do tipo “gastei o que tinha e o que não tinha, e ainda bem que o pessoal da Vara da Infância e da Adolescência me disse que minha posição na fila era 31, porque vou precisar de tempo para me recuperar”.

    Quando o avião ainda estava para pousar, peguei um bloquinho e comecei a escrever uma lista de coisas que precisava fazer antes de voltar a trabalhar. Era algo assim: ligar para o pedreiro (estava de mudança e precisava acertar umas coisas no novo ap.), comprar material de obra, marcar dermatologista, fazer matrícula na academia (toda vez que volto de férias me prometo isso) e ligar para a Vara da Infância.

    Como já disse, antes de viajar, já tinha falado com eles e sabia que estava bem atrás na fila, mas não me custava dar um pulo lá para conversar, cara a cara, e ver como as coisas estavam fluindo.

    Cheguei dia 29/03, deixei as malas na sala e já comecei a colocar minha lista em prática. Liguei para a Vara da Infância, agendei para o dia seguinte, liguei para o pedreiro e ele não me atendeu, claro!

    Dia 30/03, meu irmão – que nunca me liga – me chamou para almoçar. Expliquei que precisava ir à Vara da Infância e ele me propôs uma carona, já que trabalhava perto. E assim foi. Almoçamos no Japa e fomos para o Centro da cidade. Perto da vara, é impossível estacionar e meu irmão já havia me avisado que me deixaria lá, de onde seguiria para o trabalho. Para nossa surpresa, tinha uma vaga bem em frente ao local. Ficamos tão empolgados, que ele resolveu subir comigo, já que não é todo dia que encontramos vagas assim, dando sopa. rs

    Abri a porta da sala da assistente social, que me olhou espantada. Achei estranho, mas tudo bem, ela era assim, digamos… Estranha.

    – Liandra, por favor, me aguarde lá fora.

    Voltei, sentei e meu irmão se sentou também. Até agora, não sabemos muito bem o porquê dele ter ficado, mas…

    A assistente social passava de lá para cá. E depois de longos minutos, apareceu e me apresentou a uma pessoa.

    – Liandra, essa é minha coordenadora.
    – Olá, disse eu. Já te conheço de nome. Minha tia (que já havia adotado três crianças) fala muito de você.
    – Pois é. Sua tia parece que vai adotar o mundo.
    – Já falei para ela sair da fila porque senão não sobra filho para mais ninguém – comentei eu, rindo.
    – Não se preocupe com isso, disse a assistente social, ainda mais agora, que a família vai crescer.
    – Não acredito que minha tia adotou mais um filho! Senhor, tenha piedade das outras mães na fila! – brinquei eu, me direcionando para o meu irmão, que, para minha surpresa, não estava rindo e sim chorando, emocionado.

    Demorou uns 10 segundos para eu entender que ela estava falando da MINHA família, que a MINHA hora estava chegando! Meus joelhos falharam, quase cai e meu irão foi me segurar e ganhou uma cotovelada no nariz. Bom, ele já estava chorando mesmo. A cotovelada só intensificou o volume de lágrimas! Kkkkkkkk…

    Foi assim, no corredor, que meu filho nasceu.

    A assistente social me levou para sala, me contou que um belo menino já havia nascido há 2 meses e que estava internado. Explicou que eles estavam tentando encontrar a família que estava na minha frente na fila, e que apenas na noite anterior o juiz havia autorizado que eles “pulassem” para o próximo, para evitar que a criança, que recebeu alta, saísse do hospital para um abrigo.

    Foi por isso a cara dela de espanto quando eu abri a porta. Como ela não tinha visto o nome do próximo da fila na noite anterior, quando chegou no trabalho, entrou no sistema para pegar os contatos da família, leu meu nome e eu abri a porta. Bem no estilo: não precisa me ligar, eu já vim porque minha alma recebeu um chamado (tá bom, dei uma viajada agora, mas a vida precisa de um pouco de romance, rs).

    Sim, meu filho estava me esperando chegar de férias. Se ela tivesse me ligado um dia antes, não me encontraria e passaria para o próximo da fila. Um dia antes. Só isso.

    – E agora?
    – Agora você vai ao hospital conhece-lo, Liandra.
    – Mas como? Não tenho condição de andar sem cair. Tô muito nervosa!

    Se Deus tivesse falado comigo naquela hora, teria dito: “uai, minha filha, entendeu agora a vaga na frente da Vara da Infância e seu irmão ao seu lado?”

    Descemos as escadas ainda em choque, pegamos o carro e fomos conhecer o MEU FILHO.

    O que eu me lembro desse momento? Somente de eu perguntando ao meu irmão: e se ele não gostar de mim? E se ele não gostar de mim?

    Afff… Preciso de um copo de água! No próximo post vou contar sobre nossa chegada à maternidade e da saída de lá, já mãe.

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