O Menino da Pipa

    "Toda infância deveria ter uma rabiola e um boné e um calção russo". A jornalista Natasha Sivieiro traz uma nova crônica sobre o dia a dia de pais e filhos. E crianças... E pipas.

    Os três meninos da pipa jogam todos os dias a vida na minha cara. Brincam na rua transversal, às vezes são cinco, às vezes dois, mas o menorzinho está sempre no meio.

    Tem o tamanho do meu filho, mas, a julgar pela postura e destreza, está perto dos cinco anos. É marrom e pequeno e bonito e feliz, e é criança. Está sem camisa e tem o calção e o cabelo desbotados, mas a pipa sempre muito alinhada e colorida – e hoje estava com um boné fluorescente.
    Toda criança deveria ser feito aquele menino: feliz, mas não feliz demais; não feliz de uma vez. Feliz com aquela felicidade que tem o dia todo – a vida toda.

    Toda infância deveria ter uma rabiola e um boné e um calção russo. E ser de-vagar, concluo, bem na hora em que o portão de ferro da escola me encara. Encaro-me, e mesmo assim, deixo meu filho. Vim cedo, volto à noite. Mesmo assim eu deixo meu filho, mas não sem pensar que o menino da pipa me pôs de novo a matutar a vida.

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