Pai, compra pra mim?

    Sou capaz de apostar que você já deve ter presenciado, ouvido falar ou até mesmo participado da clássica cena do filho que chora desesperado, esperneia e se joga no chão do supermercado matando os pais de vergonha só porque seus desejos de consumo não foram atendidos.

    Talvez você vá dizer: “tudo culpa da tevê e da publicidade”. Não tiro sua razão, em parte isso é verdade, realmente influenciam os hábitos de consumo das crianças, tanto que no Brasil, se estuda a possibilidade de acabar com a publicidade voltada ao público infanto-juvenil, conforme já acontece em outros países.

    Mas, convenhamos, a culpa não é só da tevê, da mídia ou da publicidade. Outro elemento tão cruel quanto esses primeiros somos nós mesmos. Sim: você, eu e muitos outros pais possuímos uma parcela considerável de “culpa” na formação dos hábitos de consumo dos nossos filhos. Dentro das possibilidades de cada família, procuramos proporcionar o melhor em termos de conforto, segurança, saúde, educação e lazer aos nossos tesouros não é verdade? Neste contexto, involuntariamente ou não (como diria Caetano) confundimos necessidade com desejo.

    Começo fazendo uma autocrítica e convido você a fazer o mesmo. Não sou do tipo “consumidor 100% consciente”, que só compra o que precisa e quando pode. Mas depois do episódio que vou contar a seguir, passei a tratar o cartão de crédito com mais carinho. Certa ocasião, voltando de São Paulo para Floripa, enquanto dava um tempo no aeroporto, resolvi comprar uns mimos para a esposa e para o filhote, que na época estava com cinco ou seis meses de idade. Entre tantos presentes mais em conta (se é que existe algo “mais em conta” em aeroporto) resolvi levar um bicho de pelúcia. O Pato, amigo do Pocoyo, personagem de desenho animado que ele adora até hoje. Você deve conhecer. Muito lindo, com enchimento antialérgico, pelúcia lavável, ótimo acabamento e caro, bem caro. Mas se é pelo sorriso do filhote, tá valendo.

    “Pra presente, por favor,” falei ao vendedor e saí da loja feliz com mais aquela bagagem de mão. Estava ansioso para ver a reação do pequeno. Cheguei por volta da 22h e minha esposa o segurou acordado para receber o presente. Entreguei a ele, ajudamos a rasgar o papel que embrulhava, ajudamos abrir a caixa e… Surpresa: jogou o bicho de lado, se encantou com a caixa colorida decorada de personagens do desenho.

    Não que tenha me magoado (ok, só um pouquinho), mas o episódio serviu para que eu percebesse que precisava ponderar melhor os presentes fora de hora que iria comprar para o filhote dali em diante. Já cometi outros excessos consumistas, mas vou omitir para preservar minha imagem na tentativa de servir como exemplo de consumidor consciente.

    Conversando com alguns amigos sobre essa equação (pais x consumo x filhos), percebi que eventualmente (ou quase sempre) procuramos proporcionar aos nossos filhotes algo que compense um desejo da nossa infância, outras vezes que amenize alguma necessidade que tivemos nessa mesma época, noutros casos é só status, aceitação no grupo social, admiração de pessoas que nem conhecemos, entre outras cocitas más. Por outro lado, as crianças são alvo nas campanhas maciças de publicidade porque, ou já são consumidores diretos, como no caso de adolescentes, ou possuem um poder enorme de influenciar a decisão de compras dos pais.

    Esse ciclo vicioso: “pais influenciam filhos que influenciam pais”, tende a caracterizar o perfil de consumo das crianças. Ou seja, a “culpa” é da tevê, do rádio, das mídias, das redes sociais, da internet, do marketing, da publicidade, mas é dos pais também.

    A missão é difícil, mas é possível reverter tal situação. Proteger um filho o tempo todo das frustrações compensando com bens materiais causa inversão de valores e não proporciona a oportunidade que ele precisa para aprender que preço é o que se vê na vitrine e valor, é o que se têm no amigo, por exemplo. Cedo ou tarde a vida se encarrega de apresentar a conta, e aí, independentes, talvez a gente já não esteja assim tão perto para protegê-los. Legal é tentar o equilíbrio nessa relação para que consumo não se confunda com consumismo, necessidade com desejo, e valor com preço. Lembra? A gente os influencia e eles influenciam a gente.

    Lá em casa a gente “tá” tentando. E você, como lida ou pensa lidar com a situação? Diz aí.

    “Tudibom”!