Paternidade à distância: ausência em um momento difícil

    Será que dá para cumprir a função de pai mesmo à distância? Rodrigo Rossoni relata as dificuldades e aprendizados resultantes dessa relação.

    Em todos esses anos trabalhando embarcado já pesei diversas vezes o quanto valia a pena ficar distante da família por um período longo e, pior, num local onde não é tão fácil retornar rapidamente para casa em momentos de necessidade, devido à logística do transporte de uma plataforma até a base terrestre.

    Os piores momentos, sem dúvida, foram aqueles em que alguém da minha família esteve doente. Por mais que minha presença seja pouco produtiva no sentido prático dos cuidados com a saúde, o fator psicológico e o suporte em momentos difíceis contam muito.

    Recentemente passei por um desses momentos, quando minha filha mais nova, a Lavínia, adquiriu uma infecção bacteriana e posteriormente uma pneumonia, o que resultou numa internação de quatro dias. Eu estava embarcado havia uma semana e precisava decidir se solicitaria o meu desembarque ou seguiria acompanhando à distância.

    Num primeiro momento a situação estava sob controle, com minha família ajudando e minha esposa, Eliz, sempre me deixando informado, então decidimos que eu ficaria mais um dia aguardando, já que ainda estavam investigando a origem da infecção e ela estava bem e, principalmente, bem cuidada.

    A decisão se mostrou acertada, já que a interrupção de minha escala tem alguns desdobramentos como a necessidade de repor os dias posteriormente. Com essa reposição, em um mês eu teria que passar apenas uma semana em casa e isso também sacrifica ainda mais a mim e à minha família.

    Não foi uma decisão fácil! Os quatro dias em que ela esteve internada podem ser considerados um dos piores que já passei a bordo em toda a minha vida profissional. O que amenizava a angústia era o amparo dos colegas de trabalho, sempre preocupados e solícitos, mas principalmente a confiança na dedicação de minha esposa e de meus familiares mais próximos.

    Eliz teve que encarar sozinha a bateria de exames, as noites em claro, as agulhadas e a inquietação de uma criança de apenas um ano e três meses que não queria ficar presa numa cama ou num quarto de hospital. Foi bem cansativo pra ela, que além das informações também enviava fotos da nossa bebezinha (sempre nos momentos em que ela estava bem) na tentativa de me tranquilizar.

    Passada a dificuldade, Lavínia está totalmente recuperada e botando a casa de pernas para o ar e mais uma vez fica evidente a necessidade de uma estrutura familiar consolidada para quem trabalha offshore. É simplesmente impossível se manter trabalhando distante de casa e não poder confiar na parceria do cônjuge, por exemplo. O fato de eu não estar sempre presente me ensina uma grande lição de humildade e dependência do próximo. Não estarei sempre disponível, não sou senhor das circunstâncias e em todos os casos aquilo que não está ao meu alcance quando estou presente, também não estará quando estiver ausente.

    Aprender a confiar nas pessoas, ter tranquilidade diante das dificuldades e, especialmente, ter a fé de que Deus cuida com muito carinho de quem amamos são praticamente as regras para quem escolhe ser pai ou mãe offshore. Não é tarefa fácil, mas a vida nem sempre é feita de melhores momentos e nessas horas, independente se estamos presentes ou não, decisões serão tomadas, dificuldades serão enfrentadas e crises serão superadas. Como sempre, equilíbrio e sabedoria nas decisões darão o tom de nossa vida como trabalhador offshore, pois dependendo da dose desses ingredientes teremos paz, tranquilidade e coragem para seguir cumprindo nossas missões como pais e também como profissionais.

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