Paternidade offshore e a mão companheira da mãe

    Rodrigo Rossoni abre o coração e fala sobre sua relação com a esposa e as filhas depois do nascimento da sua caçulinha, Lavínia

    Hoje vou compartilhar com vocês algo um pouco mais particular, mas que estou certo de que poderá ser importante para famílias onde um dos pais precisa se ausentar do lar por longos períodos: como a distância afeta a minha relação com minha esposa e, consequentemente com nossas filhas.

    Após o nascimento de nossa segunda filha, Lavínia, algo ficou muito evidente para algumas pessoas mais próximas a mim: a relação de intensa parceria que tenho com a Eliz na criação de nossas filhas e na condução de nosso lar.

    Para nós também foi uma experiência nova, pois ainda que já tenhamos passado algo semelhante quando a Luiza nasceu em 2009, agora quando saio para trabalhar, são duas crianças aos cuidados quase exclusivos da mãe. Para que essa relação desse certo, ao longo do tempo, construímos pilares importantes nos quais nos apoiamos.

    O primeiro é a forma como vejo minha esposa e como sou visto por ela. Eliz deixou um emprego de analista administrativo com nível superior para cuidar de nossas filhas. Não é uma tarefa fácil para alguém que trabalhou fora desde os dezessete anos, administrar uma casa, duas crianças, um marido e uma rotina desgastante. Então eu a valorizo, expresso a ela minha gratidão por sua dedicação e reconheço que cuidar do lar é, sem dúvida, um dos trabalhos mais árduos que uma pessoa pode enfrentar sem remuneração e em turno ininterrupto de 24h.

    Outro pilar importante é o comprometimento mútuo com a educação de nossas filhas. Isso é algo delicado e importante, pois em muitos lares há uma transferência (e até fuga) de responsabilidades: “quando o seu pai (ou mãe) chegar você vai ver”! Ou: “fale você com ele (a), pois eu já estou farto” são frases comuns onde pais ausentes e filhos desorientados vivem em pé de guerra. Crianças precisam da segurança mais do que ninguém, portanto, mesmo que um dos dois se ausente por um tempo, não se pode negligenciar a disciplina (tão importante quanto o carinho, a atenção, a dedicação, etc.) ou, pior ainda, confundir a criança diminuindo a autoridade um do outro. Os erros ou os excessos cometidos na criação devem ser discutidos em particular pelo casal, os elogios em público.

    O terceiro pilar é a confiança. E não me refiro apenas à lealdade, fundamental em relacionamentos, mas também no que diz respeito às decisões que são tomadas sem a ajuda do cônjuge. Em alguns casos, não apenas estive ausente, como também estive incomunicável. Se minha esposa não fosse alguém em quem confio muito, eu não teria um minuto de tranquilidade. Confio em suas decisões e ela tem a segurança de que eu não vou julgá-la por possíveis equívocos. Em alguns momentos teremos que agir sem consultarmos um ao outro e, independente das consequências dessas decisões, estamos seguros de que nos apoiaremos.

    Por fim, a quarta coluna de sustentação de minha família é a parceria. Eu me casei com a Eliz por amor, mas ao longo dos anos também nos tornamos sócios e amigos na tarefa de conduzir uma casa e nossa família. Construímos juntos uma vida com muitas realizações (e, obviamente, algumas frustrações), mas nunca poderíamos suportar a distância, a ausência, a saudade, os desafios, as doenças, os choros, as angústias e os momentos de medo se nos isolássemos ou agíssemos individualmente. Seja quando estamos num momento de lazer, seja quando estamos educando nossas filhas, nós somos verdadeiramente parceiros. Não pode ser diferente quando estou trabalhando. Estou fazendo a minha parte e ela está fazendo a dela em locais diferentes, distantes, mas o objetivo é o mesmo.

    Perto ou longe, estamos atentos às necessidades um do outro, e de nossas filhas. Ela tem prioridade quando quer falar comigo e, por sua vez, cuida de algumas tarefas minhas e eu sempre me lembro de ser educado e gentil ao pedir e agradecer pelas coisas que ela faz. Assim vamos carregando o fardo um do outro, dividindo tarefas, embora obviamente algumas vezes as coisas deem terrivelmente errado e o momento exija que tenhamos serenidade e ajustemos o que não funcionou. Assim se vão 16 anos de companheirismo, 9 deles no regime offshore, 6 como pais. O amor nos faz perseverante e a vida mais leve.

    Fotos: arquivo pessoal