Paternidade: os temas delicados e a confiança dos filhos

    O papai Rodrigo veio nos contar como encara as perguntas "difíceis" de suas filhas e falar um pouquinho da importância da cumplicidade e confiança na relação entre pais e filhos. Clique aqui e saiba mais!

    Seu filho ou sua filha já lhe fez algumas perguntas embaraçosas? Pois a cada pergunta “difícil” que minha filha me faz eu me sinto mais orgulhoso. Não que eu não queira um controle remoto do filme “Click” para me fazer passar por momentos constrangedores como se eu pudesse adiantar uma cena da minha vida, pelo contrário: às vezes eu acho que Deus está me testando e quase posso senti-lo rindo da minha cara e se divertindo enquanto eu me contorço de rubor diante das dúvidas “estranhas” da minha filha de sete anos.

    Porém, quando passa essa sensação de completodesamparo intelectual que os inocentes nos fazem sentir, percebemos o quanto é valiosa essa relação de confiança que uma criança pode ter com seus pais. Se a minha filha tem liberdade para me perguntar sobre sexo, por exemplo, é porque eu transmito algum tipo de segurança para que ela fique à vontade para bater um papo legal, sem tabu ou preconceitos.

    Pode parecer melodramático ficar tão chocado ou nervoso ao responder questões como essas (às vezes precoces demais), tudo bem… Afinal, é só uma dúvida. Se uma criança pergunta “o que é transar?” muitas vezes ela só quer saber o significado da palavra. E então, com nossa mania de complicar tudo no mundo dos adultos, nós pensamos nas explicações mais estapafúrdias e a criança acaba por pensar que foi um terrível erro perguntar ao papai ou à mamãe algo tão difícil de explicar.

    Eu não posso me dar ao luxo de perder a oportunidade de demonstrar à minhas filhas que sou confiável. Sem forçar a barra, mas também mostrando a elas sempre que nenhum assunto é proibido com o papai. Sim, esse detalhe é importante: sou o PAPAI de duas MENINAS. Além disso, trabalho no mar por um período longo que representa 1/3 de um ano fora de casa. Não seria natural eu ser o confidente prioritário das meninas aos olhos da família ortodoxa, certo? Mas não acontece assim na minha casa. Luiza, que já passou da fase de perguntar apenas quanto é mil trilhões vezes infinito, começa a me bombardear com perguntas de cunho social e biológico, se é que vocês me entendem. Ela até já me confidenciou alguns segredos que me deixaram surpreso.

    Eu fico muito lisonjeado quando isso acontece. É um momento precioso de cumplicidade com minha garotinha linda. Eu aprecio tanto essa relação de confiança, que antes que ela acontecesse, eu já me preparava para ela. Perguntei, por exemplo, a amigos gays o que seria importante explicar a ela caso ela se deparasse com um casal do mesmo sexo. Quando isso aconteceu na prática, pude dizer a ela – graças às explicações desses amigos – que as pessoas nascem diferentes umas das outras e que, seja lá como tenham nascido, não devem ser apontadas ou desrespeitadas, mesmo que a gente goste de outras coisas ou pense de forma diferente.

    Foi conversando com pessoas de confiança em papos informais sobre psicologia infantil que eu também percebi que é importante responder apenas o que nos foi perguntado e que logo as outras dúvidas nos dariam a direção do restante da conversa. Assim vou deixando a inocência ter todo o espaço possível em cada fase de sua vida, sem querer que minha filha seja madura o suficiente para compreender todo o mundo que a cerca. Ela saberá, basicamente, apenas o que deseja saber de mim, sem tabus ou preconceitos, mas obviamente tentando transmitir os valores nos quais acredito, especialmente quando se trata de respeito ao próximo e às convicções de cada indivíduo.

    Acho que Luiza fica satisfeita com a maioria das respostas que vem buscar de mim e de minha esposa. Uma questão complexa respondida de forma simples produz um efeito maravilhoso em minha filha: “Ah, tá, papai… Entendi… Vamos brincar?” e pronto! Assunto encerrado, ou pelo menos colocado em alguma caixinha na sua cabecinha, guardado para um momento em que aquilo será, de fato, importante para ela.