Relato de parto: o nascimento da Mirella

    "Sempre me encantou ler relatos de outras mulheres, todos com tanto sentimento na escrita. Lendo-os eu sorria, chorava e realmente sentia a emoção da mãe naquele momento tão único em sua vida. Eu passei por isso. Passaria de novo. E congelaria por uns minutos ou horas o exato momento em que Mirella veio para meu colo."

    Relato de parto: o nascimento da Mirella

    Já se passaram alguns anos e eu ainda não havia conseguido escrever o meu relato de parto. Sempre quis.

    Sempre me encantou ler relatos de outras mulheres, todos com tanto sentimento na escrita. Lendo-os eu sorria, chorava e realmente sentia a emoção da mãe naquele momento tão único em sua vida. Eu passei por isso. Passaria de novo. E congelaria por uns minutos ou horas o exato momento em que Mirella veio para meu colo.

    Engravidei na adolescência. Eu tinha medo (um medo enorme), só de pensar na possibilidade de ter um parto normal. Sim, estranho, já que muitas mulheres sonham em não precisar da cesárea. A maioria delas, a meu ver.

    Minha mãe teve três filhos: todos de parto normal/natural. Ela sempre me falou dos benefícios e de como a recuperação era ótima. Mas isso não era suficiente para me tranquilizar, nem fazer com que eu desejasse poder parir naturalmente.

    Durante a gravidez, quando mencionei a ideia de assistir a um vídeo de parto normal, ouvi falar que era melhor não ver, porque meu medo só aumentaria e aí mesmo que eu desistiria da ideia. Ok! Não quis um sentimento mais intenso de medo comigo, então resolvi não procurar.

    Seguia com medo. E assim foi até a 38ª semana. Eu me sentia insegura, desamparada e com um temor enorme dentro de mim. Fui a uma consulta com o ginecologista e obstetra (GO) no dia 11 de novembro de 2013. Expliquei meu medo e implorei por uma cesárea. Cesárea marcada! Quando ouvi: “dia 18/11/2013, pela manhã, você terá sua filha em seus braços”, respirei aliviada! Era como se um peso (o medo) que me acompanhou durante quase a gravidez inteira tivesse sido retirado das minhas costas.

    Passei até a dormir melhor, sabendo que eu não precisaria mais me preocupar com a “dor da morte”. Era isso que eu ouvia de algumas (ou várias) pessoas que tentavam me “informar” sobre o parto normal.

    Então, no dia 16/11, fui à pizzaria com minha madrinha andando, conversando muito. Comemos. Às 23h voltei para casa, andando normalmente, e feliz. Eu sabia que dormiria, acordaria no domingo, e na segunda conheceria minha filha. Chegando em casa, terminamos de fazer a cestinha de remédios da Mirella, conversamos, e uma ou duas horas depois fui tomar um banho e me aprontar para dormir. Orei, me deitei, e dormi.

    Acordei de madrugada para ir ao banheiro e percebi um incômodo na minha barriga. Nem dei importância, afinal, eu estava convencida de que teria uma cesárea e zero de dor (aham!!). Voltei a dormir.

    Quando acordei de manhã, o incômodo já era um pouco mais intenso. Mas nem estava perto de ser uma dor. Minha mãe me orientou a começar a contar o intervalo entre um incômodo e outro. Eles tinham um intervalo de 5 minutos! Quando contei isso para minha mãe, ela sugeriu irmos ao hospital, só por precaução, para ver se estava tudo bem com o bebê e comigo. Eu escolhi ficar em jejum para ir ao hospital. Vai que minha cesárea acontece com um dia de antecedência, né?!

    Chegando ao hospital, entrei na sala da GO com medo (o parto normal ainda me assombrava). Ela disse que me examinaria e então fez o toque. Eu estava apreensiva e com mil, literalmente mil pensamentos bagunçados em minha cabeça. Então ouvi: “7cm de dilatação, já pode internar!”.

    Não sei exatamente o que passou pela minha cabeça. Comecei a chorar. A médica me perguntou o que estava acontecendo e eu perguntei se ela faria minha cesárea naquele momento. Ela me disse: “claro que não! Você já está com 7 cm de dilatação, sem dor. Só faltam 3cm, você vai ter um parto normal lindo!”.

    Aí que eu chorei mesmo. Como assim? Eu? Parto normal? Nunca! E chorando eu subi com minha mãe para sala pré-parto. Ficamos sentadas ali e eu falando para ela o quanto desejava uma cesárea. A GO então veio, me perguntou se eu queria ir para o soro, para agilizar o processo de dilatação, mas eu disse que não. Primeiro eu queria comer, pois tinha ido em jejum para uma cesárea. Para um parto normal eu precisaria estar bem alimentada, coisa de bicho… Eu iria fazer muita força!

    Então, fiquei sem o soro. Às 11h almocei, pouco. A ansiedade que eu estava sentindo nem me deixava comer. Às 14h a GO voltou e foi me examinar novamente. Não havia dilatado mais nenhum centímetro sequer. Então, fui para o soro! Veio uma enfermeira colocar o soro em mim, e foi aí que eu descobri as dores da contração. Até então era uma dorzinha bem “inha” mesmo. A GO me acompanhou a cada momento a partir dali. Ela me acalmava e fazia massagem nas minhas costas.

    O tempo parecia andar devagar. Até que olhamos para o relógio e este já marcava 15h40min. Outro toque e, finalmente, estava com 10 cm de dilatação! Confesso que nesse momento e ao longo de todas essas horas no hospital, implorei 1000 vezes por uma cesárea. A GO rompeu a minha bolsa e me disse que o momento de conhecer o amor da minha vida estava pertinho de chegar.

    Fomos à sala de parto. Chegando lá, me deitei e aí meu corpo já estava no comando. Desse momento até eu parir minha filha, não lembro detalhadamente de tudo… O meu “lado bicho” começou a trabalhar por mim. Lembro-me de pedir à GO uma compressa de gaze e colocar na boca para morder. Parecia aliviar um pouco a dor.

    Enquanto eu segurava a mão da minha mãe, mordia a compressa e fazia muita força. A doutora me disse, então, que havia visto a cabeça da minha filha. Não lembro se foi nesse momento que ouvi: “você vai sentir uma picadinha!”. Aplicaram em mim a anestesia local, para “receber” a episiotomia. Ok, eu estava indo bem. Era só continuar no mesmo ritmo.

    Assim segui por 10 minutos mais, até que Mirella nasceu!

    Você vai ao céu e volta!“. A frase que eu ouvi algumas vezes durante a gravidez fez sentido no exato momento em que ela nasceu.

    Aí sim, zero de dor! Havia acabado! Um sentimento de missão cumprida tomou conta de mim. Mirella então veio para o meu colo, mamou e ali eu sentia a pontinha do amor infinito.

    Enquanto ela mamava, a GO dava os pontos da episio. Uma artéria havia sido cortada e precisei tomar uma injeção para não ter hemorragia. Eu me sentia bem, estava plenamente feliz.

    Lembro-me de que indo à sala pós-parto, falei com a enfermeira: “pede para levarem um pão pra mim. Aliás, um só não, tô com muita fome, isso cansa!”.

    Por fim, aproveito esse relato para dizer a quem quer que esteja lendo: depois dessa incrível experiência – a mais louca, a mais linda e a mais intensa da minha vida -, eu sou apaixonada e grata pelo momento que vivi.

     

    Cintia é mãe da Mirella, apaixonada pelo universo materno e pelas experiências que o mesmo proporciona. Ama escrever e compartilhar o que vive com a filha.

    Encontre Cintia e Mirella no Instagram: @sermaesempirar