A superproteção protege?

    Será que a superproteção realmente protege os filhos? Existem muitos detalhes a serem analisados, e é sobre isso que falaremos aqui.

    A superproteção protege?

    Será que a superproteção realmente protege os filhos? Existem muitos detalhes a serem analisados, e é sobre isso que falaremos aqui.

    A chegada de um filho é um momento de grande transformação na vida dos pais e, com ela, também surge a maior transição emocional que possam vir a experimentar.

    Costumo dizer que tanto o homem quanto a mulher passam por uma fase que se inicia com a gestação, onde sentimentos como amor intenso e tristeza forte caminham juntos. É um período confuso para os casais, pois alimentam uma forte vontade de viver essa fase. Ao mesmo tempo, alimentam um medo significativo de algo dar errado ou de não darem conta. Afinal, não é uma decisão da qual podemos simplesmente voltar atrás. Ela exige muita disponibilidade emocional e responsabilidade.

    Ao se tornar pai e mãe, tanto o homem quanto a mulher revivem muitos sentimentos vividos com seus próprios pais. Dessa forma, muitas vezes os filhos são uma nova oportunidade de viverem trocas que não foram possíveis antes. É como se esses novos pais tivessem a chance de reescrever sua história, construindo laços que não tiveram antes.

    Sendo assim, esses pais recebem seus filhos recém-nascidos com uma bagagem emocional que vai influenciar o novo relacionamento que vem. Essa bagagem está cheia de vivências somadas ao longo da vida, sentimentos de medo, ansiedade, insegurança e felicidade.

    Tomados por todos esses sentimentos, os pais vão conduzindo suas falas e comportamentos em direção ao novo filho. A sensação de responsabilidade por essa nova vida nasce durante a gestação para os pais e fica mais forte com o nascimento do bebê.

    Ser responsável por alguém que se ama mais que a si mesmo é, sem dúvida, muito desafiador. E, neste instante, percebemos outro instinto surgindo: o de proteção. Os pais entendem que precisam proteger seus filhos de qualquer indício de perigo.

    Nesse momento, por medo de não conseguir prevenir o filho, pais acabam os protegendo além da conta. É evidente que os bebês precisam de zelo, principalmente no início da vida. São seres completamente dependentes, mas não é necessária a superproteção. Eles precisam de contato com outras pessoas, novos estímulos e desafios que promovam seu desenvolvimento.

    A superproteção, de forma geral, limita o ser humano e o impede de viver situações necessárias para o amadurecimento psicossocial. Por isso, crianças criadas com muitas privações crescem extremamente frágeis, do ponto de vista psicológico.

    Ansiedade é um dos sintomas comuns, visto que ao longo da vida, principalmente na fase da adolescência, a necessidade de tomada de decisão e independência se torna mais necessária.

    Tornam-se adolescentes com dificuldades consideráveis de fazer escolhas. Por terem sempre sido “guiados” por seus pais, não conseguem fazê-las sozinhos. Tais atitudes não previnem os riscos reais, apenas tranquilizam os pais dos medos que eles mesmos possuem.

    Uma analogia que costumo fazer traduz bem o contexto apresentado: uma criança superprotegida é uma criança com baixa imunidade emocional. Quando estamos com a imunidade baixa, adoecemos com mais facilidade, e é exatamente o que ocorre com essas crianças.

    Com frequência apresentam desconforto emocional significativo, podendo acarretar em adoecimentos psicológicos mais graves, como depressão, ataques de pânico, fobias, entre outros.

    Vale reforçar que os filhos precisam, sim, da proteção, do cuidado e do carinho dos pais, principalmente nos primeiros anos de vida, porém, lembrando que a necessidade de proteção, bem como a de os pais fazerem tudo pelos filhos, diminui ao longo dos anos.

    Aqueles pais que continuam fazendo tudo por seus filhos podem acabar tirando a oportunidade dele aprender a fazer sozinho.  É necessário que os pais deixem de oferecer comida na boca no momento certo, e que possam estimulá-los a comer sozinhos, para que se acostumem.

    Uma boa dica para “medir” se devem ou não fazer no lugar do filho, é se perguntar se ele já pode fazer por si só algo como, por exemplo, amarrar o cadarço.

    Lembrem-se, pais: amar é ensinar os filhos como fazer, e não fazer tudo sempre por eles. O crescimento é inevitável na vida de qualquer ser humano, mas as crianças precisam de incentivos. Crescer é desafiador, por isso devem sempre ser estimuladas e encorajadas, e ninguém tem uma voz tão “poderosa” como a dos pais para realizar essa tarefa com sucesso.

    Acreditem mais nos seus filhos, mostrem isso a eles e busquem encorajá-los!

    Lais Salomão Amador é psicóloga e realiza atendimento em consultório particular a gestantes, crianças e adultos. É proprietária da Consultoria New Cicle e consultora da escola de educação infantil Maple Bear, de Cachoeiro de Itapemirim.

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    Email: newcicle.es@gmail.com