Sou odontopediatra e meu filho usa chupeta!

    A odontopediatra Alice Sarcinelli , mãe do Miguel, conta para a gente como foi a introdução da chupeta na vida do pequeno. Vem ler!

    Como vocês sabem sou odontopediatra e meu bebê usa chupeta! Não vou dizer que foi fácil para mim aceitar introduzir a chupeta para Miguel.

    Quando as mães preparam o enxoval do bebê, geralmente, a chupeta está sempre lá, um item básico e com diversos modelos à nossa disposição. Nesse momento, muitas mães acabam comprando chupetas e mamadeiras para seus bebês sem perceber que já estão fazendo uma escolha. Toda criança precisa de chupeta? Não.

    O bebê nasce com o reflexo de sugar, mecanismo que permitirá sua sobrevivência. Alguns têm uma necessidade de sucção maior que outros, não necessariamente fome. Para esses, mesmo que alimentados, há um desejo de continuar sugando, muitas vezes o próprio dedo. Outros, até quando os pais tentam introduzir a chupeta, não aceitam, simplesmente não querem sugar. Por isso, recomendo não utilizar a chupeta na maternidade e, sempre que possível, quando for o caso de introduzi-la, fazer após o primeiro mês de vida, para evitar a possível confusão de bicos, em que a criança passa a rejeitar mamar no peito da mãe em troca de chupeta e mamadeira. Por que não conhecer seu filho melhor, em meio a tantas descobertas e variáveis, para aí sim fazer sua escolha?

    No caso do Miguel, não levei a chupeta para a maternidade. Na verdade, nem cheguei a comprar. Tinha certeza que meu filho não usaria chupeta. Bem, comecei logo a aprender que nem sempre as escolhas com os filhos são tão definitivas e lineares. Aos 16 dias, ele que era um bebê-anjo mudou completamente de comportamento. Chorava dia e noite e não largava meu peito. Eu, que achava que começava a entendê-lo, perdi todas as referências.

    Nas consultas com o pediatra ou entre familiares e amigos todos tentavam me consolar, dizendo que era assim mesmo e que, provavelmente, eram as cólicas ou a fome, que meu leite podia não estar sustentando. Eu me recusava a acreditar, pois o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses era minha meta (outro sonho interrompido rs). Quando não estava no meu peito, tentava sugar a mão, que eu cobria com luvas cada vez mais grossas para que ele não descobrisse os dedos. Até que um dia apareceu com uma mancha roxa no antebraço que descobri ser um chupão. Na falta do peito ou de um objeto de sucção, ele passou a sugar o próprio braço. Nesse dia cedi aos apelos e introduzi a chupeta. Ele adorou! Mas eu achava horroroso, feio mesmo, esteticamente falando. Via como uma deformação, muito por causa das minhas convicções.

    Cinco dias depois descobrimos o motivo de tanto choro e necessidade de sucção: ele estava com uma otite interna, a membrana do tímpano rompeu e ficou evidente pela saída de um líquido amarelado de seu ouvido. Nesse momento dei graças a Deus por ter dado tanto peito em livre demanda e por ter me rendido à chupeta: eu ajudei meu filho a passar por essa situação com mais conforto e acolhimento, já que está comprovado cientificamente o papel protetor da sucção em relação à dor. A sucção de chupetas é ofertada a bebês internados em UTINS como forma de aliviar a dor das punções e outros procedimentos.

    O que recomendo aos pais de meus pacientes é: em caso da utilização de chupeta, faça de forma racional, somente nos momentos de indução do sono, removendo antes da criança dormir completamente, controlando a frequência e intensidade, para que o hábito não se torne um vício, uma dependência ou uma muleta de controle comportamental por parte dos pais, o famoso “cala a boca”.