Tentar compensar a ausência não faz bem aos filhos

    Em mais um texto emocionante, Rodrigo Rossoni conta como faz para dar amor e carinho à família, sem tentar compensar o tempo em que fica longe de casa por causa do trabalho

    Nossa filha mais velha Luiza, com cinco anos, passou cerca de um terço da vida sem a minha presença em casa.

    Lavínia, nossa bebezinha, agora com cinco meses, ainda não tem uma memória estabelecida que a permita distinguir quem sou eu. Consequentemente, não pode ainda notar essa ausência, mas em breve terá que se acostumar com um pai que, hora está em casa, hora não está. Este é o meu trabalho! Não volto para casa todos os dias no fim do expediente como ocorre em muitas famílias.

    Tenho muitos colegas trabalhando no regime offshore, alguns deles passam mais tempo embarcados do que em casa, em alguns períodos, e observo que é muito comum ocorrerem as chamadas “compensações de ausência”. Especialistas alertam, acertadamente a meu ver, que isso pode ser muito prejudicial para a formação de nossos filhos.

    Vocês devem imaginar o tamanho do desafio que é retornar para casa depois de um longo período distante de nossos filhos e dizer não aos inúmeros pedidos, sejam coisas materiais, seja a atenção total que as crianças desejam logo nos nossos primeiros dias de folga. Em nossa casa, logo que eu chego, praticamente tudo que Luiza quer fazer é comigo, tentando compensar o longo período de ausência.

    Mas é preciso dosar as coisas, afinal, temos toda uma vida a organizar depois de nos afastarmos de casa por um período. Até mesmo numa viagem de férias funciona assim, é preciso uns dias para descansar e tentar retomar a normalidade e a rotina normal de nossas vidas.

    pais_presentes-3Eliz, Luiza e Lavínia: um selfie para o paizão

    Assim como qualquer trabalho fora, o cuidado com nossos filhos também é uma tarefa árdua que muitas vezes nos esgota, gerando igualmente a necessidade de descanso. Isso ocorre, por exemplo, quando eles adoecem e passamos noites em claro. Recentemente nossas duas filhas tiveram pneumonia ao mesmo tempo. Passamos o dia e uma parte da noite no hospital, quando eu e minha esposa precisamos nos revezar até mesmo na hora de dormir.

    Nossos filhos são importantes para nós, porém, é preciso ensinar com muito amor, cautela e paciência que cuidar deles e brincar com eles não é a nossa única prioridade, pois, como adultos, temos muitas responsabilidades. Se negligenciamos essa lição, ainda que o coração fique em pedaços por ver seus rostinhos desapontados por uma negativa qualquer, corremos o risco de transformá-los em adultos frustrados que pensam que o mundo gira ao redor deles.

    pais_presentes-2Sessão pipoca para compensar o tempo longe

    Não podemos abrir mão de disciplinar nossos filhos, ou incorrer no erro de oferecer coisas materiais em demasia sem necessidade, acatar todas as suas vontades ou tolerar acintes apenas porque acabamos de chegar, ou logo partiremos para o trabalho. Educação é parte do processo que prova para eles o tamanho do nosso amor. É duro, não é o que gostamos de fazer, mas é o que precisa ser feito, independente do vazio que nossas ausências deixam em seus corações.

    Como sempre, o equilíbrio é a palavra de ordem. A qualidade do tempo que passamos juntos é a única compensação aceitável e desejada por nossos filhos. As meninas sentem minha falta quando eu vou, mas quando eu retorno, a alegria é enorme, tudo fica bem e mesmo que eu não esteja 100% do tempo de folga à disposição, sempre há um tempinho para largarmos tudo e curtir um joguinho divertido, um cinema, um passeio de barco ou um programa preferido juntos.